08/07/14

James K. Galbraith sobre a proposta modesta, Europa e Grécia. Entrevista

James K. Galbraith. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido desde o castelhano (tradução de David Torres Pascual) por À revolta entre a mocidade.Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs da Universidade de Texas (Austin). O seu último livro é Inequality and Instability: A Study of the Worl Economy Just Before the Great Crisis (2012) e proximamente tem previsto publicar The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). 
 
Nesta entrevista com um jornalista grego, com o galho do lançamento da tradução grega do livro The Modest Proposal de Yanis Varoufakis (do que temos falado em À Revolta entre a mocidade; vid. tag "Varoufakis", James), James K. Galbraith argumenta que Itália e Grécia podem jogar um papel importante na mudança dos termos da "discussão" em Europa, de tal jeito que as soluções racionais e minimalistas, como a sua proposta modesta, podam ter a oportunidade de salvar a Eurozona. Também explica que a implosão grega foi uma medida política procedente de Berlim e Francforte; e que se a pressão da troika diminui deve-se ao sucesso de SYRIZA - e não aos "êxitos" do programa de austeridade. Por último, responde à importante pergunta sobre as estratégias de inversão do governo chinês em Grécia e no resto da Eurozona.





A "proposta modesta" sustenta-se sobre a análise de que a crise financeira pode resolver-se se três instituições, a saber, o Banco Central Europeu (BCE), o Fundo Europeu de Inversões (FEI) e o Banco Europeu de Inversões (BEI), assim como o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE) se empregam na direção de criar um espaço comum entre as economias europeias, já seja através da emissão de euro-bónus ou mediante um novo "New Deal" [literalmente Novo Trato, pacote de estímulo da economia desenvolvido por Roosevelt nos EUA após a crise de 1929; ÀReaM]. No entanto, em última instância, estas são decisões de caráter político rechaçadas pela maioria dos estados do norte de Europa, que sentem que já têm feito suficiente pelo sul nos últimos 50 anos. Este sentimento exprime-se através do apoio aos partidos eurocépticos nas recentes eleições. Considera este recente câmbio perigoso para o euro e para a UE? Na sua opinião, como é que se pode frenar esta tendência?

Sim é perigoso. Embora haja que assinalar que o grupo eurocéptico não o fez de tudo bem na Alemanha, que é a nação decisiva sobre estes assuntos.

Para começar, é mester encontrar um discurso claro e convincente para o sul de Europa. Acho que este processo já está em andamento, tanto em Itália quanto em Grécia. O fundamento desse discurso não pode ser que os estados em crise precisam "ajuda". Deve ser que o projecto europeu está em perigo, que deve ser salvo, que pode ser salvo - e que essas medidas requerem uma mudança de ideias e de política. 

Depois será preciso começar as negociações com os companheiros europeus encarregados das mudanças  nas medidas políticas.

Ainda está por ver se a opinião pública no norte de Europa pode modificar-se a favor dum câmbio deste teor. Porém, um giro favorável apenas é possível se os líderes políticos começam a exprimir-se com novas ideias e com uma nova direção na prática.


Quanto a sua proposta de um novo "New Deal", os críticos assinalam que os programas de crescimento e estímulo têm fracasado anteriormente na UE (por exemplo, durante a presidência de Delors na Comissão Europeia) e que, em lugar de isso, deveríamos centrarmo-nos na competitividade. Quê é que lhe leva a pensar na sua proposta como uma boa solução para Europa? 

A nossa proposta não está baseada em "estímulos". É uma mudança coordenada em quatro áreas: a dívida pública, o sistema bancário, um programa de inversões e um programa de solidariedade social. Baseia-se, em parte, nos princípios da sucedida estabilização das condições económicas que teve lugar nos Estados Unidos, e que também se deu "no interior" das grandes economias do norte de Europa. Sustenta-se sobre ideiais e políticas provadas. Por outras parte, uma estrategia baseada na "competividade" está destinada ao fracasso, já que não há jeito de que o sul de Europa poda diminuir os ordenados reais  tanto como para ser competitivos frente ao mundo não europeu. Pelo contrário, os recortes nas instituições de bem-estar social no sul de Europa estão destruindo os cimentos duma economia avançada, fazendo menos atrativa a inversão e piorando a competitividade.

Em relação à crise Humanitária, você propõe que os estados e os bancos cheguem a um acordo para reverter a tendência seguinda com TARGET2. Isso implicaria necessariamente um giro desde a "competitividade" à "solidariedade" e refletiria uma mudança nos corações e nas mentes das elites europeias. Poderia-se decidir e aplicar esta mudança sem modificar os princípios básicos do pensamento económico e político dominante atualmente na UE?

Não. Requer-se uma mudança de pensamento. Graças por fazer esta pergunta. Acreditamos que é a nossa tarefa ajudar a aclarar este ponto. Quanto à nossa proposta para financiar os cupões  de alimentos utilizando o juro acumulado de TARGET2, lembro-lhe que este dinheiro não reflete a competitividade do Norte. Reconhecendo esta competitividade, "recompensa" às nações centrais mediante excedentes na sua conta corrente. O juro acumulado de TARGET2, pela contra, reflete a fragmentação do euro; não podemos cavilar nesses quartos como uma recompensa para as decisões empresariais tomadas pelas entidades dos estados centrais.

 
Mario Draghi anunciou recentemente a fixação de taxas de juro negativas, com o propósito de fazer frente à deflação. Na sua opinião, será isto avondo?


Não. As armas do banco central neste aspeto são muito débeis.

A ideia das taxas de juro negativas parece fundamentar-se em que os bancos deveriam ter um incentivo para emprestar as suas reservas. Porém os bancos não prestam reservas. Os bancos criam depósitos através de empréstimos, e concedem empréstimos apenas quando têm solicitantes credíveis, com boas expetativas e garantias. O Banco Central Europeu pode calmar o pânico. Pode-se pôr fim a esta especulação coordenada contra os estados pequenos. Porém, por sim próprio, o BCE não pode criar as condições gerais para a reanudação da expansão generalizada de crédito. Por isso teimamos no papel do BEI e do FEI, e na necessidade de implementar a grande escala a capacidade destas instituições.


O presidente do principal partido da oposição em Grécia, SYRIZA, Alexis Tsipras, reclama, entre outras cousas, o indulto duma parte da dívida. Parece-lhe realista essa demanda? Pode sair Europa da crise sem algum tipo de redução da dívida dos estados do sul? 

A ideia desenvolta na proposta modesta consiste num mecanismo que funciona através do Banco Central Europeu para ajudar a que dívida soberana de Grécia e de outros estados em crise seja mais manejável, acompanhado de medidas para ajudar a restaurar a atividade económica e, já que logo, (finalmente) a capacidade fiscal do estado heleno. Acreditamos que esta proposta é totalmente realista, especialmente se se aplica dentro do marco da legislação europeia existente. Particularmente, no caso de Grécia, uma vez que a sua dívida em poder das autoridades públicas europeias se voltasse manejável, deveria ter pouca dificuldade controlar a dívida que fica em mãos privadas.

Permita-me assinalar que, nestas situações, se não se tomam as medidas práticas, com o tempo, outras medidas mais duras serão necessária. Uma dívida que não se pode sustentar, não sustentar-se-á. Assim que as cousas põem-se mais difíceis a medida que passa o tempo se não há uma ação prática.


 No seu informe anual, o MEDE insiste em que Grécia está seguindo o caminno correto e que se encontra na senda do crescimento, como demonstra o índice de competitividade del Banco Mundial, em que o país escalou 29 posições em comparação ao ano 2009. (Pode leer o informe do MEDE aqui). O MEDE afirma explícitamente que se avançou devido à redução de los costes da mão de obra no país.
Sim o MEDE é a sua autoridade nestes assuntos, não podo fazer muito mais por você. Sugiro-lhe pegue uma vista de olhos às suas predições anteriores.

Por outra parte, o primeiro ministro chinês visitou Grécia no dia de hoje coma intenção de assinar acordos de 7 biliões de euros em setores como o do ferrocarril e as infraestruturas, o turismo, etc. Deveriam ser considerados como signos da confirmação de que a austeridade funciona? Se não é assim, qual seria a sua interpretação?

Acho que os chineses estão mostrando interesse para ganhar-se a vontade do Estado grego e para conseguir aprofundar neste tipo de cooperação com o fim de assegurar-se um maior acesso aos mercados em Europa. Também estão interessados na diversificação da sua carteira de ativos, embora em menor medida. Não creio que estas inversões sejam, em sentido estrito, uma proposta de negócios para eles; quase nada do que China faz no campo da inversão estrangeira tem a ver mais com os negócios que com motivações políticas. Portanto, e com muita claridade, esta medida não tem nada que ver com o suposto sucesso do programa de austeridade. Mais bem é uma oportunidade que surge do fracasso de Europa à hora de iniciar este tipo de inversões, que poderiam ter sido feitas baixo a proteção do Banco Europeu de Inversões.


O governo afirma que o resgate está chegando a sua fim e que no futuro não serão necessárias mais medidas de austeridade. Partilha você essa opinião? 

Sobre este tema, espero que o governo tenha razão. Se o que diz o governo é certo, estaria refletindo um importante câmbio de posição por parte da troika. E a causa dessa mudança - e se produziu- não é difícil de averiguar: podemos encontrá-la em SYRIZA. A hipótese mais provável é que os sócios europeus de Grécia estejam reagindo perante o câmbio no clima político grego e sintam preocupação por poder encontrar-se negociando frente um interlocutor muito mais duro representando ao próximo governo grego.

Por suposto, o que esta mudança demonstra é que as medidas de austeridade aplicadas ao longo deste tempo tiveram uma motivação política mais do que económica. As medidas tomaram-se, sobretudo, por raz4oes de política interna na Alemanha. Agora, toda vez que o governo alemão se instalou de forma certa após as eleições, surge uma motivação política mais ampla, que requer a mudança de políticas. E mudam-se.

Conclusão: durante todo este tempo, a economia não teve nada a ver com as políticas de austeridade.


E, por último, teve a oportunidade de assessorar o governo social-democrata do PASOK e ao então Primeiro Ministro, George Papandreou, em 2009. Alguma vez lhe pediram o seu conselho? 

Visitei Grécia várias vezes durante o governo do Primeiro Ministro Papandreou. Ele é um velho amigo, e como sabem os laços entre as nossas famílias remontam-se à década de 1940. Os meus comentários para o governo consistiram basicamente em expor as minhas razões para um profundo pessimismo sobre o rumo das políticas europeias, especialmente em relação a Grécia. O governo grego, nesse momento, tinha uma visão mais otimista e esperançada, e não os culpo por isso. Porém temo-me que as circunstâncias deram-me a razão.

01/07/14

O Facebook ensaia a manipulação de mentes

Robert Booth. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui) e traduzido por Gabriela Leite desde o original publicado em The Guardian.

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Sem consentimento dos usuários, rede testa meios de torná-los “felizes” ou “coléricos” e desencadeia onda de temor sobre controle social e político


Ele já sabe se você está solteiro ou em um relacionamento; a primeira escola onde estudou;  se ama ou odeia Justin Bieber. Mas agora o Facebook, a maior rede social do mundo, está enfrentando uma tempestade de protestos ao se revelar que descobriu como fazer usuários se sentirem mais tristes ou felizes, com apenas alguns toques no teclado.

O Facebook acaba de publicar detalhes de um amplo experimento, no qual manipulou informações postadas nas páginas de 689 mil usuários, e descobriu que poderia fazê-los sentir-se mais positivos ou negativos, por meio de um processo de “contágio emocional”.

Em um estudo [leia o relatório] com acadêmicos da Universidade de Cornell e da Universidade da Califórnia, o Facebook filtrou o feed de notícias de usuários — a corrente de comentários, vídeos, imagens e links postados por outras pessoas em sua rede social. Um teste reduziu a exposição de usuários ao “conteúdo emocional positivo” de seus amigos. Em consequência, os usuários submetidos a este conteúdo manipulado também postavam menos posts positivos. Outro teste reduziu a exposição a “conteúdo emocional negativo”: os usuários reagiram de maneira oposta à do  primeiro grupo.


O estudo concluiu: “Emoções expressas por amigos, via redes sociais, influenciam nossos próprios humores, constituindo, segundo sabemos, a primeira evidência experimental de contágio emocional em escala maciça, via redes sociais.”

Advogados, ativistas que debatem o futuro da internet e políticos afirmaram, neste final de semana, que o experimento de massa sobre manipulação emocional era “escandaloso”, “assustador” e “incômodo”.

Na noite de domingo, um membro experiente do Parlamento Britânico pediu uma investigação parlamentar sobre como o Facebook e outras redes sociais manipularam respostas emocionais e psicológicas de seus usuários, ao editar informações oferecidas a eles.

Jim Sheridan, um membro do comitê de mídia da Câmara dos Comuns britânica, disse que o experimento era intrusivo. “Trata-se de algo extraordinariamente poderoso, e se ainda não há uma legislação para isso, deveria haver, para proteger as pessoas”, disse. “Estão manipulando informações da vida pessoal de seres humanos, e me preocupa a capacidade do Facebook e de outros para manipular os pensamentos relacionados a política ou outras áreas. Se as pessoas estão sendo controladas dessa maneira, segundo o que pensam, é necessário que haja uma proteção, e elas precisam ao menos ter consciência disso.”

Uma porta-voz do Facebook disse que a pesquisa, publicada este mês na revista de Procedimentos da Academia Nacional de Ciências dos EUA, foi realizada para “melhorar nossos serviços e tornar o conteúdo que os usuários veem no Facebook o mais relevante e envolvente possível”.

Ela acrescentou: “Uma grande razão da pesquisa é entender como as pessoas respondem a tipos diferentes de conteúdo, seja em um tom positivo ou negativo, notícias de amigos, ou informações sobre as páginas que seguem.”

Mas alguns outros comentaristas expressaram receio de que o processo poderia ser usado para propósitos políticos em disputas eleitorais ou para encorajar internautas a se manterem focados no site, alimentando-os com pensamentos felizes, e permitindo bombar as receitas de publicidade do próprio Facebook.

Em uma série de posts no Twitter, Clay Johnson, o co-fundador da Blue State Digital, a empresa que construiu e gerenciou a campanha online de Barack Obama à presidência em 2008, disse: “O experimento do Facebook de ‘trasmissão de raiva’ é aterrorizante.”

Ele pergunta: “A CIA poderia iniciar uma revolução no Sudão pressionando o Facebook a promover descontentamento? Isso seria legal? Mark Zuckerberg poderia virar o resultado de uma eleição ao promover posts do Upworthy [um site que agrega conteúdo viral] duas semanas antes de os cidadãos irem às urnas? Isso seria legal?”

Alega-se também que o Facebook possa ter quebrado normas éticas e legais, ao não informar seus usuários que estavam sendo manipulados no experimento, realizado em 2012.

A rede afirmou que alterar o feed de notícias foi “consistente com a política de uso de dados do Facebook, com a qual usuários devem concordar antes de criar uma conta no Facebook, constituindo consentimento informado para esta pesquisa”.

Mas Susan Fiske, acadêmica de Princeton que editou o estudo, disse estar preocupada. “As pessoas devem ser avisadas quando vão participar de estudos e concordar com isso, além de terem a opção de discordar sem serem penalizadas.”

James Grimmelmann, professor de Direito da Maryland University, disse que o Facebook não obteve “consentimento informado”, segundo os padros definidos pela política federal dos EUA para a proteção da subjetividade das pessoas. A lei demanda explicação sobre os propósitos da pesquisa e a duração estimada de participação do indivíduo, uma descrição de quaisquer riscos razoavelmente previsíveis e uma confirmação de que o envolvimento é voluntário. “Este estudo é um escândalo porque trouxe as práticas problemáticas do Facebook a um reino — a academia — onde ainda temos como padrão tratar pessoas com dignidade e servir ao bem comum”, disse em seu blog.

Não é novidade para as empresas de internet usar algorítimos que selecionam o conteúdo que mostram aos seus usuários. Jacob Silverman, autor do livro Terms of Service: Social Media, Surveillance, and the Price of Constant Connection (em tradução livre, “Termos de serviço: mídias sociais, vigilância e o preço da conexão constante”), disse à revista Wired, no domingo, que a internet já é “uma coleção ampla de estudos de pesquisa de mercado; nós somos os objetos”.

“O que é perturbador sobre como o Facebook agiu sobre isso, entretanto, é que eles essencialmente manipularam os sentimentos de centenas de milhares de usuários sem pedir permissão”, disse. “As coisas com as quais o Facebook mais se importa são as seguintes: envolvimento e publicidade. Se o Facebook, digamos, decide que filtrar nossos posts negativos ajuda-o a manter as pessoas felizes e clicando, há pouco motivo para pensar que eles não irão fazê-lo. Enquanto a plataforma se mantiver na condição de um filtrador tão decisivo — e conservar seus algorítimos completamente opacos — nós devemos ficar cautelosos com o poder e confiança que delegamos a ele.”

Robert Blackie, diretor digital da agência de marketing Ogilvy One, disse que a maneira que as empresas de internet filtram informações que mostram a seus usuários é fundamental para seus modelos de negócio, o que as faz relutantes para abri-los.

“Para garantir aceitação continuada de público, estas empresas terão que rediscutir tal questão de maneira mais aberta no futuro”, ele disse. “Será preciso introduzir ou críticos independentes, capazes de analisar o que elas fazem, ou regulação governamental. Se o Facebook e similares não compreenderem isso, as pessoas ficarão relutantes ao utilizar seus serviços, o que é potencialmente um grande problema de negócios.”

30/06/14

1914: Quatro mitos da Grande Guerra

Paul Seabright. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido desde o castelhano por nós. Tradução castelhana de Lucas Antón. Paul Seabright (1958) é professor de economia na Escola de Economia da Universidade de Tolosa. Estudou em Oxford, de cujo All Souls College foi membro, ao igual que do Churchill College de Cambridge. Aliás, foi consultor do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, do Banco Mundial, da Comissão Europeia e das Nações Unidas. Tem ensinado como professor visitante no Instituto de Estudos para o Desenvolvimento de Madrás (na Índia), na Universidade Livre de Bruxelas, no Colégio de Europa de Bruxas e na Universidade Autónoma de Barcelona. É colaborador da  Londo Review of Books e entre os seus livros conta com The Company of Strangers: A Natural History of Economic Life (Princeton University Press, 2004).



Se o centenário do assassinato em Sarajevo do archiduque Francisco-Fernando, o 28 de junho de 1914, provocou já uma avalanche de publicações históricas, teve relativamente poucos trabalhos sobre a economia. Mas os economistas não podiam deixar passar sem reagir ante um acontecimento tão destacável. Em um documento de trabalho da Universidade de Warwick (Reino Unido) que provocou já bastantees discussões, o historiador económico Mark Harrison desmenuza quatro "mitos sobre a Grande Guerra" ("Myths of the Great War" em CAGE Working Paper, nº 188, University of Warwick, Department of Economics).

Segundo Mark Harrison, o primeiro mito é que a guerra se desencadeou por descuido, sem que nenhum de quem tinham capacidade de decisão política a quisesse de maneira consciente. Cita numerosas provas que demonstram, na sua opinião, uma previsão consciente dos riscos por parte de quem tomaram as decisões mais importantes. Então, estas pessoas tinham com frequência interesses muito parciais, escassamente consoantes com os das populações afetadas. Mas o problema era a falta de representatividade dos sistemas políticos e não uma falta de entendimento dos perigos.

O segundo mito, segundo Harrison, é que a hecatombe das trincheras resultasse um esbanjamento inesperado para as estratégias da época. Muito ao invés, o equilíbrio de recursos militares entre as partes implicava que uma guerra de desgaste era a única concebível. Alemanha levava vantagem em termos de população; os aliados, em recursos económicos (sobretudo na produção de carroças de combate, de aviões, de ametralladoras). Estas vantagens estavam equilibradas de forma tão precisa que, uma vez tomada a decisão de ir à guerra, só uma longa campanha de desgaste podia mostrar quem era, em realidade, capaz de ganhar.  

O terceiro mito responde ao papel do bloqueio dos aliados sobre a importação de alimentação na Alemanha, citado com frequência como o fator mais desmoralizador para a população alemã. Em realidade, demonstra que a queda da produção de alimentos foi, antes bem, resultado da mobilização e do esforço de guerra na mesma Alemanha, que desviaram da agricultura a mão de obra camponesa, a construção de maquinaria agrícola e os produtos químicos que servem para fabricar abono.    

O quarto mito se cifra em que o Tratado de Versalles foi a causa do extremismo político en que se afundou Alemanha após 1933. Esta ideia, desenvolvida inicialmente por John Maynard Keynes, continuou a ser moeda corrente até hoje. Harrison demonstra que a carga dos reparos exigidos em Versalles foi bastante mais ligeira do que habitualmente se pensa, em parte porque Alemanha reembolsou delas menos de uma quinta parta e porque a partir de 1924 os empréstimos norte-americanos cobriam a totalidade dos reembolsos efetuados. O que abismou a Alemanha no extremismo foi a Grande Depressão dos anos 30, o qual não resulta em absoluto uma conclusão reconfortante, já que hoje em dia a metade dos jovens gregos e dos jovens espanhóis se encontra no desemprego.       

Provavelmente, há mais unanimidade nestas questões entre os historiadores da economia que entre os historiadores da economia e os demais historiadores. O trabalho de Harrison não se apoia unicamente nas suas próprias investigações senão nas de vários colegas economistas. Não é pois seguro que os historiadores "puros" fiquem convencidos. As origens e as consequências da Grande Guerra são objeto de controvérsias... desde 1914! Cem anos depois, estão longe de ter concluído. 
 

26/06/14

PIB dos Estados Unidos tem a maior queda trimestral em 5 anos

Marco Antonio Moreno. Artigo tirado de Esquerda.net (aqui). Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net.  O negrito é nosso.

A economia dos Estados Unidos contraiu a um ritmo muito maior que o estimado previamente no primeiro trimestre para registar o seu pior desempenho em cinco anos, como mostra o gráfico, demolindo a crença de que a primeira economia do planeta tem tido uma recuperação sólida.
O Departamento de Comércio dos EUA indicou nesta quarta-feira que o produto interno bruto caiu a uma taxa anual de -2,9 por cento, em lugar de -1,0 por cento como tinha sido informado em maio, e de +0,1 por cento estimado em abril.

Conquanto se tenha apontado que os problemas da economia derivam de um inverno excecionalmente frio e de uma seca de longa data que assola Estados como Texas ou Califórnia, onde se recupera a água dos duches e sanitários para voltar a usar, a magnitude da queda sugere muitos outros fatores para além dos relacionados com o clima.

Os Estados Unidos enfrentam o que temos chamado de uma estagnação de longo prazo, pela debilidade do seu setor industrial, pelas enormes bolsas de desemprego e pela existência maioritária do chamado "trabalho precário", fantasmas que também existem na Europa com os débeis sinais de crescimento e a nula recuperação do emprego. Ainda que os governos digam o contrário e lancem números otimistas, o emprego nunca mais voltará aos níveis existentes de antes da crise de 2008.

Para os Estados Unidos, o crescimento baixou 3 pontos percentuais desde a primeira estimativa que o governo fez em abril, quando sustentou que a economia teria uma expansão de 0,1 por cento. A diferença entre a segunda e a terceira estimativa foi a maior nos registos que remontam a 1976. Os dados do PIB conhecidos nesta quarta-feira baseiam-se nos registos mais completos disponíveis e diferenciam-se dos anteriores fundamentalmente nos dados do consumo. Como assinalámos anteriormente, o investimento privado teve uma queda de 11,7 por cento e o PIB tinha sido impulsionado pelos dados do consumo privado. Tinha-se estimado anteriormente que o consumo teria uma subida de 3,1 por cento, mas estabeleceu-se agora em 1 por cento. Se entendemos que o consumo representa 70 por cento do PIB dos Estados Unidos, podemos compreender por que a queda do PIB foi tão demolidora.

Os efeitos das alterações climáticas

Estima-se que o mau tempo pôde provocar a redução do crescimento até -1,5 por cento no primeiro trimestre. Os efeitos das alterações climáticas, que os Estados Unidos sempre negaram, começam a passar a fatura. A procura de transporte, maquinaria, computadores e produtos eletrónicos, sofreu uma queda de 17 por cento. Os pedidos destes produtos, que vão desde torradeiras de pão a aeronaves e que estão destinados a durar três anos ou mais, caíram pela primeira vez em três meses. Por sua vez, as exportações reduziram-se numa taxa de 8,9 por cento, em lugar de um ritmo de 6,0 por cento, o que resulta num défice comercial que cortou 1,53 pontos percentuais ao crescimento do PIB. O débil crescimento das exportações está relacionado com as gélidas temperaturas durante o inverno.

Estes dados deitam por terra a recuperação dos Estados Unidos e da economia global. A economia encontra-se repleta de bolhas especulativas e os leitores não devem surpreender-se que até o BCE e Wolfgang Schauble comecem a falar de novas bolhas imobiliárias à beira de estoirar, como já o fez o Fundo Monetário Internacional seguindo o que temos apontado em numerosos artigos.

A economia global encontra-se nas proximidades de um círculo vicioso e será sacudida por um novo tsunami financeiro que desta vez não poderá contar com os apoios dos governos e das instituições que deveriam vigiar a estabilidade do sistema. Todas as instituições monetário-financeiras como o FMI, o Banco Mundial ou os bancos centrais não têm feito mais que cuidar dos interesses da banca, saqueando as poupanças e a riqueza dos contribuintes, expropriando o direito ao trabalho, esgotando os recursos do planeta e transferindo riqueza dos mais pobres para os mais ricos. A economia aproxima-se de uma nova recaída e os dados desta quarta-feira podem ser o começo do declive.

25/06/14

Saír do euro?

Pierre Kahlfa. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido desde o espanhol por nós. Tradução espanhola de Lucas Antón. Pierre Khalfa é sindicalista, membro do Conselho Económico, Social e Ambiental francês, copresidente da Fundação Copernic e membro do conselho científico de Attac. Faz parte de Ensemble [Juntos], terceira formação do Front de Gauche, junto ao Parti de Gauche (PG) e o Partido Comunista Francês.

 

O semanário francês de esquerdas Marianne dedicou o passado janeiro uma ampla reportagem e várias entrevistas a debater o abandono do euro desde uma posição favorável [http://www.marianne.net/Sortir-de-l-euro-Lhe-debat-interdit-est-ouvert_a235455.html]. Pierre Khalfa, uma das cabeças mais lúcidas do Front de Gauche francês, respondeu com precisão e inteligência fazendo ver as contradições e inconvenientes de dita postura.


 «Sortir de l?euro? Lhe débat interdit» [«Sair do euro? O debate proibido»] titula Marianne (N° 876, do 31 de janeiro ao 6 de fevereiro). Poder-se-ia ironizar que este sedicente debate é objeto regularmente de intercâmbios argumentados em uma série de órgãos de imprensa, já seja a direita ou a esquerda, que esta perspetiva a evocam regularmente certos responsáveis políticos e que em páginas interiores Marianne reconhece que «em todos os ministérios de Finanças da [euro]zona, o mesmo que em todos os serviços de estudos e de gestão de riscos das grandes entidades financeiras, todo mundo está em cima de isso». Para tratar de um debate proibido? Poder-se-ia também fazer notar que «esquece» Marianne conceder a palavra a uma posição, aquela para a que entrada em vigor do euro não é mais que um dos aspetos de um problema mais vasto, a imposição na Europa por todos os governos de políticas neoliberales executadas em nome da competitividade.



A entrevista com E. Todd, decifrada


Neste dossier, a entrevista de Emmanuel Todd é como para mandar que o parem. Aí também poder-se-ia ironizar sobre essas declarações suas enxergando o inconsciente de François Hollande: «o seu inconsciente diz que tem medo». É o mesmo Todd, partidário do «hollandismo revolucionário» que durante a campanha eleitoral de 2012 apoiava a François Hollande e previa que ver-se-ia forçado pela crise a tomar medidas antiliberais?

Na sua entrevista, Todd trata ao Parlamento Europeu de «falso parlamento». No entanto, a comparação entre o Parlamento Europeu e o Parlamento francês não se resolve necessariamente a favor deste último. Um e outro carecem de iniciativa legislativa e, no caso francês, a utilização de um nicho parlamentar para apresentar uma proposição de lei não tem mais oportunidade de chegar a termo que o acordo do governo. No entanto, com a instauração da codecisão em numerosos terrenos, o Parlamento Europeu pode bloquear uma diretiva em caso de desacordo com o Conselho, após um procedimento de emendas e de ida e volta com o Conselho, algo ao que se chegou várias vezes. Por contraste, conquanto o Parlamento francês pode em teoria bloquear um projeto de lei do governo, na prática já é outro cantar totalmente diferente, pois os parlamentares da maioria estão submetidos a uma lógica institucional que os converte, in fine, em solidários com o governo. Como todo os antieuropeus, Todd se nega a reconhecer que é como a democracia se esvaziou de conteúdo a escala nacional pelo que é quase inexistente a escala europeia. Assim, conquanto a construção europeia assistiu ao surgimento de instituições supranacionais, bem que são os estados nacionais os que decidiram, afinal de contas, as suas orientações. aconteça isso no enquadramento dos conselhos de ministros, do Conselho Europeu ou das Conferências Intergovernamentais (CIG), os estados seguiram mantendo o controlo sobre a construção europeia. Longe de ter-se visto despojados do seu poder, dominaram a cena europeia? Mas, discretamente, entre estruturas! A história da construção europeia converteu-se assim na das grandes manobras, a da diplomacia secreta, enturvada só pelas discussões com a Comissão. Este modo de construção da União desembocou no resultado que conhecemos: uma Europa antidemocrática e neoliberal.

Todd indica que a saída do euro desencadearia «uma revolução social, a limpeza de elites mau formadas, envelhecidas, arcaicas, algo comparável ao que aconteceu em 1945». Conquanto a sua caracterização das «elites» atuais tem provavelmente uma parte para valer, falta no entanto um rasgo essencial, o de estar dominadas pela ideologia neoliberal da competitividade. Pode-se duvidar, de facto, de que a saída do euro desencadeasse a revolução social anunciada, pois a não ser que esta preceda àquela, a saída do euro levá-la-ão a cabo essas elites e não se vê por que razão teriam de se fazer o harakiri.


Desvalorizar não é um jogo


Para além desta entrevista um tanto caricaturesca, há um argumento em forma de anel que volta nas declarações dos partidários da saída do euro. A volta à moeda nacional permitiria restabelecer mediante a desvalorização a competitividade da economia francesa. Ao desvalorizar, os produtos seriam assim mais competitivos para a exportação. Esta análise descansa na tese de que o problema central da economia francesa tem que ver com a compétitivité de preços. Os produtos franceses seriam mais caros. Para além do facto de que esta análise é exatamente o do Medef [o patronato francês] que preconiza uma baixada dos custos salariais, contradiz todos os relatórios um pouco sérios sobre a competitividade francesa, que indicam pelo contrário que o problema fundamental da economia francesa é a competitividade aparte dos preços, isto é, uma ausência patente de inovação, uma inadecuação à demanda, um tecido industrial desarticulado dominado por grandes grupos que pressionam aos seus subcontratistas. Nesta situação, uma desvalorização constituiria uma medida bastante pouco adequada, pois, contrariamente ao que afirma o banqueiro de negócios Phillipe Villin na sua entrevista, os fabricantes alemães de carros não vendem na França mais que veículos de alta gama e, em modelos equivalentes, os carros alemães são hoje mais caros que os franceses: Peugeot, por tanto, não salvar-se-ia.

Uma desvalorização monetária, proteger-nos-ia de uma desvalorização interna que se efetuasse mediante o descenso da massa salarial? Evidentemente, não, pois teria então que lutar por «defender as nossas exportações» e historicamente as desvalorizações se viram sempre acompanhadas de políticas de austeridade. Por outro lado, é o que confessa o mesmo Philippe Villin o deixando cair em uma frase que indica que, depois da desvalorização da moeda, «estaríamos salvos, desde que retomássemos também as reformas estruturais que se impõem». Na neolíngua dos economistas liberais, a expressão «reformas estruturais» significa baixada dos custos de trabalho, recortes da despesa pública e questionamento da proteção social.


Mas como todos os países se lançaram a uma carreira de competitividade, as medidas de austeridade são as mesmas em todas partes. Em uma Europa economicamente integrada na que os fornecedores de uns são os clientes dos outros, uma orientação desse género se traduz em um jogo de soma zero e implica uma lógica recessiva que agrava ainda mais a dificuldade das empresas. As políticas de austeridade continuariam, pois, tanto mais porquanto a desvalorização implicaria uma inflação da que derivar-se-ia a alça de preços dos produtos importados. Defensor da saída do euro, Jean-Marc Daniel, experiente economista do Instituto da Empresa, vê-se obrigado a admitir na sua entrevista que «a inflação mordisquearía nossas vantagens competitivas e a fatura petroleira explodiria em proporções que fariam passar a eco-taxa que denunciam os «bonnets rouges » [*] por um vulgar pinchado». E negando-se, por outra parte, a restaurar o controlo de mudanças, medida que considera impopular, não evoca curiosamente a fuga de capitais, inevitável em caso de desvalorização, nem a possibilidade de ataques especulativos contra a moeda.



Mas isso não é o essencial. Uma estratégia de desvalorização competitiva, que aponte a ganhar parcelas de mercado contra os demais países, engendrará uma espiral de políticas económicas não cooperativas. Longe de induzir a uma maior solidariedade entre os povos, essa estratégia traduzir-se-ia em uma maior concorrência, mais dumping social e fiscal, o que teria como consequência um agravamento das tensões xenófobas e nacionalistas em uma situação na que por toda a Europa vai de vento em popa. A saída do euro demonstra-se um espelhismo milagroso e não pode ser um projeto progressista. Por outra parte, o economista André Orléan, um dos  fundadores da rede de Economistas Aterrorizados, vê corretamente o problema, já que assinala na sua entrevista que «a saída do euro não é (...) um fim em si mesmo (...) teria que se voltar imperativamente para os nossos sócios para lhes convencer de repensar em comum o enquadramento da nossa cooperação». Mas como advogar então por uma nova cooperação, quando os defensores de uma saída do euro reconhecem que esta seria não cooperativa.

Orléan assinala que «as sociédades do CAC 40 [índice bursátil francês] têm retribuído com 43.000 milhões de euros aos seus acionistas em forma de dividendos e resgate de ações. Este montante elevou-se um 4% em relação a 2012». Esta situação não guarda nenhuma relação com o euro e uma saída da moeda única não mudaria nada disso. A questão central, que os partidários da saída deixam quase sempre de lado, é a da dominação do capitalismo acionarial. Com euro ou sem ele, sem atacar isso, nada mudará.



E a dívida em tudo isto?

Fica um debate, que consequência teria uma desvalorização sobre a dívida pendente de pagamento? Até data recente, todo mundo, partidários da saída do euro incluídos, admitia que a dívida pendente de pagamento aumentaria em proporção à desvalorização da moeda. Assim, afirmava Jacques Sapir na época: «Se estamos na hipótese de uma saída isolada, então aumentará a parte da dívida em mãos dos não residentes. Como há um 66% da dívida em mãos de não residentes, se o franco se desvaloriza um 20 %, isto significa um incremento do 13,2 % da dívida pública».[1] Os partidários da saída do euro argumentam hoje, de facto, que se tendo emitido o essencial da dívida pública francesa de acordo com o Direito francês, reformular-se-ia em moeda nacional e, portanto, sem efeito algum depois de uma desvalorização. Um termo erudito, retomado por Marianne, supõe-se que justifica este ponto de vista: lex monetae.


Esta análise erra em vários pontos. A emissão de dívida garante no Direito francês que em caso de conflito entre o Estado e os seus credores, este conflito ver-se-ia ante os tribunais franceses, o que por outro lado não garante em modo algum que prevaleça o Estado. Há a seguir dois supostos possíveis. Se estoura a zona euro e o euro desaparece, os Estados terão que passar entre eles uma convenção que indique as taxas de conversão entre o euro e as novas moedas, e os contratos em euros formular-se-iam então nas novas moedas com as taxas de conversão negociadas. Não cabe dúvida de que os credores estarão representados na mesa de negociações e defenderão com firmeza os seus interesses com a ajuda de ameaças. Se o euro segue existindo como moeda, não se vê por que os credores, sobre todos os não residentes, aceitariam que uma dívida estipulada em euros o seja em uma moeda menos forte. E já seja que se chegue então a um acordo através da ativação de cláusulas coletivas, já seja que o governo francês se imponha, em ambas situações, se trata de uma anulação parcial da dívida. O que, efetivamente, sempre é possível, já se trate de uma moeda única ou não, com a condição de ter a vontade política de enfrentar aos mercados financeiros.


Não se trata só de uma questão jurídica, contrariamente ao que pensam os partidários da saída do euro. Em caso de desaparecimento do euro, terá que aguentar na mesa de negociações e procurar aliados, o que supõe compromissos e, por tanto, ter em conta os interesses dos credores. Em caso de manutenção do euro e supondo inclusive que os tribunais franceses lhe dêem a razão ao Estado, o que não está em modo algum garantido, os credores poderiam então recorrer a outras jurisdições (Londres ou Nova Iorque, por exemplo) para tentar que se condene a França. Terá então que se negar a aplicar decisões jurídicas, o que supõe um pulso com as instituições internações e os mercados financeiros. Em resumo, a aplicação da lex monetae, sedicente novo «abre-te, Sésamo» para uma saída tranquila do euro, corre o risco de ser mais complicada do previsto.



Por um pulso!

Então, que fazer? [2] Ver-nos-íamos condenados, bem à impotência, ao aceitar a situação atual, bem a lançar a uma aventura de alto risco com a saída do euro? Existe, não obstante, uma terceira via para os povos europeus. Passa por um confronto com as instituições europeias e os mercados financeiros. Não produzir-se-á nenhuma mudança substancial sem abrir uma crise de envergadura na Europa e sem se apoiar em mobilizações populares. Um governo de esquerda deveria explicar que está unido à construção europeia, mas que se nega em nome desta a que se destruam os direitos sociais e as populações depauperadas.


Deveria manter o seguinte discurso: «O euro é a nossa moeda. Mas os tratados colocaram-no baixo domínio financeiro. O BCE financia à banca privada a taxas quase nulas e esta presta a seguir aos estados a taxas exorbitantes. Não queremos seguir submetidos aos mercados financeiros. Queremos fazer com que o euro funcione ao serviço das necessidades sociais e ecológicas. Queremos pôr os nossos bancos baixo controlo cidadão para que sirvam às verdadeiras necessidades da sociedade e não à cobiça dos seus acionistas. Nós, como governo deste país, começaremos por atuar  assim na nossa própria casa. Convidamos aos movimentos sociais e aos povos europeus a fazer outro tanto em todas partes para nos reapropriar juntos da nossa moeda e refundar a União Europeia sobre outras bases».


O governo em questão tomaria uma série de medidas unilaterais, explicando que estas têm vocação de se estender a escala europeia. Trata-se de medidas unilaterais cooperativas, no sentido de que não se dirigem contra nenhum país, contrariamente às desvalorizações competitivas, senão contra uma lógica económica e política e que, quanto mais importante seja o número de países que as adotem, mais aumenta a sua eficácia. Por tanto, em nome de outra conceção da Europa é como deveria um governo de esquerdas pôr em prática medidas que rompem com a construção atual da Europa. Assim, por exemplo, um governo de esquerda poderia ordenar ao seu banco central financiar os deficits públicos por médio da criação monetária. Por outra parte, isto poderia se fazer indiretamente sem violar sequer formalmente os tratados europeus utilizando como intermediário uma entidade pública de crédito como, por exemplo, na França a Caisse dês Dépôts [Caixa de Depósitos] [3]. Trata-se fundamentalmente de comprometer em um processo de desobediencia aos tratados e por isso mesmo de um pulso com as instituições europeias.


Uma atitude assim mostraria concretamente que há alternativas às políticas neoliberais. Poria aos governos contra a parede e enfrentar-lhes-ia à sua opinião pública. Seria um estímulo para que os povos se mobilizassem. Um discurso determinadamente proeuropeu, voltado para a democracia, a justiça social e ambiental, encontraria um considerável eco em outros povos europeus e movimentos sociais. Os dirigentes europeus tentarão seguro aplicar represálias. Ameaçar-se-á ao povo desobediente com um boicote económico total, uma ameaça por outro lado mais crível contra os países pequenos que contra os maiores, sobretudo França.


O desvincule deste pulso não está escrito de antemão. Uma exclusão forçada do país rebelde, embora o Tratado de Lisboa não preveja nenhuma possibilidade de excluir a um país da zona euro, seria possível, tal como se ameaçou a Grécia em caso de vitória eleitoral da esquerda radical de Siryza? Poderia um efeito dominou progressista ganhar a outros países que se cindiriam e poderiam instaurar um euro-bis, com inovações fiscais e orçamentas, solidárias e ecológicas, que fá-lo-iam viável? Produzir-se-ia um viro da zona euro por uma refundição dos tratados? Tudo dependerá das relações de força construídas que poderão se construir a escala europeia. A desobediência europeia, começando se é necessário em um país, pode-se conceber e popularizar, não como o início de uma eclosão de solidariedades europeias senão, pelo contrário, como instrumento para acelerar o surgimento de uma comunidade política europeia, um embrião de «povo europeu».



A divergência com os partidários da saída do euro centra-se em dois pontos: por um lado, não é possível, desde um ponto de vista progressista, promover uma estratégia, a desvalorização competitiva, que incrementa a concorrência entre povos e estados; por outro lado, se não pode excluir, em certos casos, uma saída do euro, esta seria resultado da conjuntura e de uma batalha política por uma refundação da União Europeia e não um projeto político a priori. Estes dois pontos estão evidentemente unidos. Precisamente porque não renunciámos à batalha por uma Europa da solidariedade é pelo que não podemos brindar um projeto, a saída do euro, do que é negação.



Notas:

[1] Citado por Libération, 16 de janeiro de 2014.


[2] Veja-se: Thomas Coutrot, Pierre Khalfa, "Crise de l'euro : sortir du carcan", em Nous désobéirons aussi sous a gauche!, baixo a direção de Paul Ariès e René Balme, Editions Golias, setembro de 2012; Fondation Copernic, Changer vraiment!, Editions Syllepse, junho de 2012; Pierre Khalfa, Catherine Samary, "A monnaie, l'euro, ne pas se tromper de débat", janeiro de 2011; Michel Husson, "Quelles réponses progressistes?", Les Temps Nouveaux, outono 2010; Jean-Marie Harribey, "Sortir de quoi?", abril de 2011, http://harribey.u-bordeaux4.fr/travaux/europe/debat-sortiedeleuro.pdf; Daniel Albarracín, Nacho Álvarez, Bibiana Medialdea (Espanha), Francisco Louçã, Mariana Mortagua (Portugal), Stavros Tombazos (Chipre), Giorgos Galanis, Özlem Onaran (Grã-Bretanha), Michel Husson (França), "Que faire da dette et de l'euro?, Um manifeste!" http://tinyurl.com/euro13.


[3] Trata-se de utilizar as possibilidades oferecidas pelo artigo 123-2 do Tratado sobre  funcionamento da União Europeia.


[*] Nota do t.: «bonnets rouges», literalmente «gorros vermelhos», em referência aos que portavam quem participavam no movimento de protesto surgido na Bretanha em outono de 2013 -camioneiros, agricultores, operários, parados, pescadores, patronos- e que se opunha à aplicação da eco-taxa e outras medidas fiscais sobre a contaminação de veículos de transporte de mercadorias. 



09/06/14

O triplo buraco do BCE

Yanis Varoufakis. Artigo tirado de Sin Permiso (aqui) e traduzido desde a versão castelhana de Gustavo Buster. Varoufakis é um economista greco-australiano de reputação científica internacional, exercendo de professor de política económica na Universidade de Atenas e coselheiro do programa económico do partido grego Syriza. Também exerce a docência nos EUA, na universidade de Texas. O seu último livro, El minotauro global (Capitán Swing, a partir da 2ª edição inglesa revista) é para muitos críticos a melhor explicação teórico-económica da evolução do capitalismo nas últimas seis décadas.

 

O BCE está colheitando agora a sinistra colheita deflacionária que semeou pela sua longa indecisión apesar da contração do crédito e a redução da oferta monetária. Todo isso provocado, por suposto, por quatro anos de austeridade universal em um momento de frenético  desapalancamiento dos setores bancários em quebra, demasiado comodamente protegidos por uns governos fiscalmente estresados.

O triplo pacote de medidas anunciado ontem pelo Banco Central Europeu (BCE), soava impressionantemente radical. Por desgraça, a história demonstrará que são só uma desculpa para não fazer o que tinha que fazer, isto é,  uma verdadeira flexibilização quantitativa, especialmente do tipo que defendi aqui : compra-a em massa de bónus do BEI (Banco Europeu de Investimentos) junto de um grande programa pão-europeu de recuperação impulsionado por investimentos.

Quanto às medidas anunciadas: a redução da taxa básica de interesse a 0,1% é irrelevante quando está já tão cerca de zero, dada a queda ou o estancamento dos preços. A taxa de depósito negativa inevitavelmente também dececionar pelas convincentes razões expostas por Frances  Coppola. Por último, George Magnus resumiu por que os 400.000 milhões de euros  do TLTRO não são mais que uma pistola de água em relação com a seca de crédito para a PME.

No grego da rua, o triplo pacote do BCE não é mais que um triplo buraco na água. Por desgraça ...

Wallerstein: o jogo geopolítico de Moscou e Pequim

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução  Inês Castilho.


Xi Jinping e Vladmir Putin, presidentes da China e Rússia, brindam ao acordo para venda de gás. Mas estão de olho nos EUA e Alemanha.
Xi Jinping e Vladmir Putin, presidentes da China e Rússia, brindam ao acordo para venda de gás. Mas estão de olho nos EUA e Alemanha.

Mal-estar no Ocidente, diante do acordo entre Putin e Xi, revela colonialismo e decadência. Mas Rússia e China pretendem algo distinto do que anunciam…



Os governos, os políticos e a mídia do mundo “ocidental” parecem incapazes de compreender os jogos políticos representados por outros atores, em outros lugares. Sua análise do acordo recém-proclamado entre Rússia e China é um exemplo espantoso disso.

Em 16 de maio, Rússia e China comunicaram a assinatura de um “tratado de amizade” que duraria “para sempre”, mas que não era uma aliança militar. Simultaneamente, anunciaram uma negociação com gás, segundo a qual os dois países construirão um gasoduto para exportar o gás russo para a China. A China emprestará o dinheiro para construir sua parte do gasoduto. A Gazprom (maior produtora russa de gás e óleo) teria feito algumas concessões de preço à China, um assunto que há algum tempo impedia o acordo.

Os jornais de 15 de maio estavam cheia de artigos explicando por que tal acordo era improvável. Quando, no dia seguinte, o acordo aconteceu, os governos ocidentais, os políticos e meios de comunicação ficaram divididos entre os que pensavam ser uma vitória geopolítica do presidente russo, Vladimir Putin (e deploravam o fato), e aqueles argumentando que o acordo não faria muita diferença geopolítica.

Fica bem claro, a partir das discussões e votos no Conselho de Segurança da ONU nos últimos anos, que Rússia e China partilham a oposição às várias propostas encaminhadas pelos Estados Unidos (frequentemente seguidas por vários países europeus), para autorizar o envolvimento direto (abrindo caminho para o envolvimento militar, em última análise) na disputa civil na Ucrânia e nos múltiplos conflitos do Oriente Médio.

As sanções unilaterais que os Estados Unidos já impuseram à Rússia por causa de seu suposto comportamento na Ucrânia, e a ameaça de ainda mais sanções, sem dúvida apressaram o desejo russo de encontrar saídas adicionais para seu gás e óleo. E isso, por sua vez, levou a muitos comentários sobre um revival da “guerra fria” entre Rússia e Estados Unidos. Mas será esse o verdadeiro ponto do novo tratado Rússia-China?

Parece-me que ambos os países estão realmente interessados em reestruturar as alianças interestatais de modo diferente. O que a Rússia está procurando, verdadeiramente, é um acordo com a Alemanha. E o que a China está querendo, na verdade, é um acordo com os Estados Unidos. E o estratagema dos dois é anunciar uma aliança “eterna” entre si.

A Alemanha está claramente dividida, internamente, sobre a possibilidade de incluir a Rússia na esfera europeia. A vantagem desse arranjo, para a Alemanha, seria consolidar as bases do consumo da Alemanha na Rússia, garantir suas necessidades de energia e incorporar a força militar russa em seu planejamento global de longo prazo. Considerando-se que isso inevitavelmente significaria a criação de uma Europa, pós-OTAN, a ideia encontra oposição não apenas dentro da Alemanha mas, claro, também na Polônia e nos países bálticos. Do ponto de vista russo, o objeto do tratado de amizade Rússia-China é fortalecer a posição daqueles que, na Alemanha, são favoráveis a trabalhar com a Rússia.

A China, por sua vez, está fundamentalmente interessada em refrear os Estados Unidos e reduzir seu papel no Leste asiático. Dito isto, contudo, ela quer fortalecer, e não enfraquecer seus elos com os Estados Unidos. A China procura investir nos Estados Unidos com os preços de barganha que julga estarem agora disponíveis. Quer que os Estados Unidos aceitem sua emergência como poder regional dominante no Leste e Sudeste da Ásia. E que os Estados Unidos usem sua influência para evitar que o Japão e a Coreia do Sul tornem-se potências nucleares.

Claro, o que a China quer não é consoante com a linguagem ideológica que prevalece nos Estados Unidos. A despeito disso, parece haver um apoio silencioso a tal evolução de alianças, dentro dos Estados Unidos – especialmente nas estruturas corporativas principais. Assim como a Rússia deseja usar o tratado de amizade para encorajar certos grupos na Alemanha a se moverem na direção que considera mais útil, a China quer fazer o mesmo com os Estados Unidos.

Esses jogos geopolíticos vão dar certo? É possível, mas não há certeza alguma. De sua própria perspectiva, Rússia e China têm tudo a ganhar e muito pouco a perder, usando tal estratégia. A verdadeira pergunta é: como o debate interno se desenvolverá, no futuro próximo, na Alemanha e nos Estados Unidos. Quanto ao argumento de que o mundo está voltando a uma guerra fria entre os Estados Unidos e a Rússia, penso nele simplesmente como o contra-estratagema daqueles que compreendem o jogo que Rússia e China estão iniciando, e tentam se contrapor a ele.

O "marxismo" como ópio dos sedicentes marxistas: carta aberta duma keynesiana a um marxista sedicente

Joan Robison (1903-1983), uma das mais reconhecidas economistas inglesas. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido por nós desde a tradução castelhana realizada por Antoni Domènech.



O texto de Joan Robinson que a seguir se reproduz foi originalmente publicado por estudantes de esquerda de Oxford em 1953. É uma estupenda polémica, politicamente amistosa, mas analiticamente demolidora, com um marxista ortodoxo da época (que tipicamente confundia a ciência com a paixão do escoliasta). A senhora Robinson foi uma das maiores economistas do século XX, e o seu texto, cheio de vigor e clareza mental, não perdeu um ápice de atualidade; ao invés. Faz pouco cumpriu-se o 40 aniversário da sua morte. Valha esta publicação para lembrá-la e recomendá-la calorosamente agora que a crise do capitalismo permitiu que volte a sacar cabeça o pensamento económico-cientista sério, isto é, nem acriticamente apologético do existente, nem limitado "criticamente" a puros labores escolásticas. 

Previno-lhe: vai resultar-lhe a você muito árduo seguir esta carta. E não porque -isso espero-  seja muito difícil -não importunar-lhe-ei com fórmulas algébricas, nem com curvas de indiferença-, senão porque considerar-lhe-á tão desconcertante que não saberá você como lhes a tomar.

Começarei com uma declaração pessoal. É você muito cortês e tenta que a mim passe inadvertido, mas sendo eu uma economista burguesa, o seu único possível interesse em me prestar atenção é o de pillarme em algum sinsentido. Pior ainda: eu sou uma keynesiana de esquerda; saquei conclusões mais vermelhas que azuis da Teoria Geral muito antes de que o livro fosse publicado. Encontrei-me na privilegiada posição de pertencer ao grupo de amigos que trabalhavam com Keynes quando o estava a escrever. Por conseguinte, fui a primeira gota vertida no frasco chamado "keynesianismo de esquerda". Além disso, agora mesmo ocupo um grande volume do conteúdo desse frasco, porque, por enquanto, boa parte do resto se tem evaporado. Muito bem; já sabe você o pior.

Mas rogo-lhe que pense em mim em termos dialécticos. O primeiro princípio da dialética é que o significado de um enunciado depende do que nega. De maneira que o mesmo enunciado tem dois significados, segundo se vinga a ele desde acima ou desde abaixo. Se mais ou menos desde que ângulo vem você a Keynes, e me percato bastante bem do seu ponto de vista. Use você também um pouco de dialética, e trate de percatarse do meu. Eu estudei em uma época em que a teoria económica vulgar se achava em um estado particularmente vulgar. Tínhamos uma Grã-Bretanha com nunca menos de um milhão de operários desempregados, e aí estava eu, com um diretor de tese que me ensinava que era logicamente impossível que tivesse desemprego, dada a Lei de Say.

E vai Keynes e prova que a Lei de Say é um sinsentido (já o tinha provado Marx, greve o dizer, mas o meu diretor de tese jamais me tinha falado das teses de Marx ao respeito). Além disso -e por isso sou uma keynesiana de esquerda, e não do outro tipo-, me percaté no ponto de que Keynes mostrava que o desemprego ia ser um osso muito duro de roer, porque não é um mero acidente: cumpre uma função. Em uma palavra: Keynes pôs na minha cabeça a ideia mesma do exército laboral de reserva que o meu professor tão meticulosamente tinha mantido afastada de mim.

Se conserva você um adarme de dialética, dar-se-á conta de que o enunciado "Sou uma keynesiana" tem um significado completamente diferente dito por mim e dito por você (claro que você não poderia dizer em nenhum caso).

O que trato de lhe dizer, e que lhe vai deixar a você ou demasiado anonadado ou demasiado encolerizado -dependerá do temperamento- para poder compreender o resto desta carta, é isto: eu entendo a Marx infinitamente melhor que você. (Em um minuto dar-lhe-ei uma explicação histórica interessante do por quê, se é que não se ficou você já  completamente gelado -ou alcançou o ponto de incandescencia-, antes de que lha solte.)

Quando digo que entendo a Marx melhor que você, não quero dizer que conheça o texto melhor que você. Se você me sai cuspindo citas, deixar-me-á no ponto perpleja. O certo é que eu nego-me desde o princípio a participar nesse jueguinho.

O que quero dizer é que eu levo a Marx na medula óssea e você, a flor de lábio. Ponhamos um exemplo: a ideia de que o capital constante incorpora força de trabalho gastada no passado. Para você, este aserto tem que se provar com cichos de verba hegeliana. Em mudança, eu limito-me a dizer: (sem, na verdade, servir-me desse pomposo léxico): "Naturalmente!" E daí outra coisa poderia ser?".

Por isso me deixou você tão terrivelmente confundida. Como andava todo o momento tratando do provar, eu pensei que estava você falando de outra coisa -não consegui adivinhar qual- que precisava provar-se.

Analogamente, suponha que os dois queremos discutir sobre um passo abstruso do Capital, por exemplo, o do esquema do final do Volume II. Que faz você? Abre o volume, e joga um vistazo. Que faço eu? Agarro o primeiro sobre que à mão tenho e, no dorso, trabalho o problema.

E agora lhe vou dizer algo ainda pior. Suponha que, a título de mera curiosidade, vou ao Capital e me encontro com que a resposta que escrevi no velho sobre não coincide com o que diz o livro. Que faço? Revisão a minha solução, e se não posso descobrir nenhum erro nela, procuro o erro no livro. Bom, suponho que aqui deveria deixar já a coisa, porque você penará que me voltei louca de atar. Mas se pode aguentar e seguir lendo um pouco mais, tratarei de explicar-lho.

Eu fui educada em Cambridge, como lhe disse, em uma época em que a teoria económica vulgar tinha chegado ao fundo do poço da vulgaridad. Com todo e com isso, entre tanto disparate, se tinha conservado uma herança preciosa: o hábito ricardiano de pensar.

Não é coisa que se possa aprender nos livros. Se queres aprender a montar em bicicleta, não será com um curso por correspondência, verdade? Claro que não; fá-te-ás com uma velha bicicleta, montarás nela, cair-te-ás, lastimarás-te os joelhos, voltarás a subir e irás dando tumbos, até que, de repente, vá, sabes montar em bicicleta!. Seguir um curso de economia em Cambridge era algo parecido. Como montar em bicicleta: uma vez aprendido, é como uma segunda natureza.

Quando leio um passo do Capital, o primeiro para mim é averiguar o significado de c, se o que tinha em mente Marx neste ponto era o estoque total de trabalho incorporado (ele não dá demasiadas pistas aludindo explicitamente ao problema: há que o elaborar a partir do contexto!): então monto em bicicleta e sento-me perfeitamente cómoda.

Para um marxista é farto diferente. Sabe que o que Marx diz tem que ser correto em qualquer caso, a que então desperdiçar energia mental averiguando se c é um stock ou um fluxo?

Chego então a um passo no que Marx diz que quer dizer fluxo, ainda que é evidente pelo contexto que tem que significar stock. Pode você achar o que eu faço então? Baixo-me da bicicleta, corrijo o erro, volto a montar, e sigo.

Pois bem; suponhamos que lhe digo a um marxista: "Fixe-se neste passo: fala de stock ou de fluxo?". O marxista diz: "C é o capital constante", e dá-me uma pequena conferência sobre o significado filosófico do capital constante. E eu, que reponho: "Deixe-se você de capital constante: confundiu Marx um fluxo com um stock?". Replica o marxista: "Como poderia ter cometido um erro? Não sabe que estamos a falar de um génio?!". E dá-me uma pequena conferência sobre a genialidade de Marx. Eu digo-me para os meus adentros: pode que este homem seja um marxista, mas não sabe muito de génios. O teu torpe e lenta mente vai passo a passo, e dá-se tempo para ser concienzuda e evitar deslizes. O teu génio calça botas de sete léguas, vai a toda o estopim deixando atrás pequenos erros aqui e lá sobre o papel (e quem se importa?). E digo: "Deixe-se de genialidades de Marx. Trata-se de fluxo ou de stock?". O marxista, então, se envara um tantito, e muda de tema. E eu me digo para os meus adentros: "Pode que este homem seja um marxista, mas não sabe muito de montar em bicicleta".

O que resulta interessante e curioso em tudo isto é que a ideologia que, como um nevoeiro, rodeava a minha bicicleta quando a montei por vez primeira tinha ser muito diferente da ideologia de Marx, e no entanto, a minha bicicleta tinha que ser a mesma que a sua, com umas quantas melhorias modernizadoras aqui e lá e uns quantos empeoramientos modernizadores aqui e lá. O que vou dizer agora está mais na sua linha, de modo que relaxe por um momento.

Ricardo existiu em um momento muito particular da história da Inglaterra, quando estava em trance de dobrar tão bruscamente um canto, que as posições progressistas e reaccionarias mudaram de bando no curso de uma geração. Ele se achava no canto mesmo, quando os capitalistas estavam a pique de superar à velha aristocracia terrateniente e a substituir como classe dominante. Ricardo estava no bando progressista. A sua preocupação fundamental passava por mostrar que os terratenientes eram parasitas da sociedade. Ao fazê-lo, converteu-se em verdadeiro sentido no campeão dos capitalistas. Eram parte das forças produtivas enfrentadas aos parasitas (dada a Lei de Ferro dos Salários, os operários sairiam malparados, passasse o que passasse).

Ricardo teve dois seguidores tão capazes como bem treinados intelectualmente: Marx e Marshall. O que enquanto passou é que a história da Inglaterra tinha dobrado o canto, e os terratenientes tinham deixado de estar em questão. Agora se tratava dos capitalistas. Marx deu assim a volta ao argumento de Ricardo: os capitalistas são extremamente parecidos aos terratenientes. E Marshall deu-lhe a volta contrária: os terratenientes são extremamente parecidos aos capitalistas. Justo à volta do canto da história da Inglaterra, o que se observa são duas bicicletas da mesma fatura: uma montada pela esquerda e outra pela direita.

Marshall fez algo assaz mais efetivo que mudar a resposta. Mudou a pergunta. Para Ricardo, a Teoria do Valor era um médio para estudar a distribuição do produto total entre o salário, a renda e o benefício, considerados a cada um deles como um tudo. Enorme questão. Marshall converteu o significado do Valor em uma pequena questão: por que um ovo custa mais que uma xícara de chá? Pode ser uma questão ínfima, mas é, ao mesmo tempo, muito difícil e complexa. Toma muito tempo e muita álgebra elaborar uma teoria para respondê-la. Por isso manteve aos seus discípulos ocupados no assunto durante 50 anos. Não tinham tempo de pensar na grande questão, nem sequer de lembrar que subsistia uma grande questão, porque tinham que deslomarse elaborando a teoria do preço de uma xícara de chá.

Keynes recuperou a grande questão. Começou pensado em termos ricardianos: se o produto devia compreender-se como um tudo, a que preocupar por uma xícara de chá? Quando pensas no produto como um tudo, os preços relativos deixam de importar (incluídos os preços relativos do dinheiro e do salário). O que entra no argumento é o nível de preços, mas entra como complicação, não como assunto principal. Se tens certa prática com a bicicleta de Ricardo, não precisas te parar e te perguntar que fazer em um caso como esse; simplesmente, faze-lo. Prescindirás da complicação, até que trabalhes suficientemente no problema principal. De maneira que Keynes começou deixando de lado os preços do dinheiro. A xícara de chá de Marshall se evaporaba como a fumaça. Mas se não podes servir do dinheiro, que unidade de valor usarás? Uma hora de tempo de trabalho humano. É a medida mais acessível e plausible, e pelo mesmo, obviamente, a mais usadera.  Não tens que provar nada; simplesmente, fazê-lo.

Pois bem; nisso estamos, de volta às grandes questões de Ricardo. E servimo-nos da unidade de valor proposta por Marx. De que se queixa você?

E faça-me o favor de sacar os narizes de Hegel de aqui. Que demónios pintam entre Ricardo e eu?