03/04/14

Santiago Alba Rico: "Se não fazemos asinha uma proposta desde a esquerda, a direita acabará explorando o desencanto

Entrevista a Santiago Alba Rico tirada de encubierta (aqui) e traduzida por nós. O negrito é de nosso.



Santiago Alba Rico alegrou e incendiou as manhãs de muitos meninos nascidos ao calor da Transição com os guiões Los Electroduendes. Nestes programas "infantis" falava-se do capital, do desemprego e da exploração laboral a modo de conto. "Fábulas marxistas" chamaram-no. Hoje muitos destes meninos são os que estão na rua -além de no desemprego- gritando os eslóganes de "Não nos representam" ou lutando em Gamonal. Alba Rico, autor de livros como Capitalismo e nihilismo, Dejar de pensar ou Volver a pensar analisa nesta entrevista a situação atual, as vitórias de Burgos ou La Marea Blanca, a ideia de que ainda é possível mudar as coisas porque o ser humano não está tão "nihilizado" como nos querem fazer achar. Só pede que tenha um impulso já por parte dos movimentos de esquerda porque se não, todo esse desencanto cairá em mãos da direita, a mais reacionária, populista e inclusive agressiva.


Você escreveu os guiões de "Los electroduendes", "fábulas de marxismo satírico para meninos". Algo fica dessa aprendizagem nos movimentos que vimos nos últimos anos?

A maior parte dos jovens que participam nestes movimentos não nascera no 88, data em que se suspendeu a emissão de Los Electroduentes. Mas sim é verdadeiro que há uma geração um pouco maior, muito ativa, nascida em torno do ano 80, que tem reelaborado a lembrança confusa das suas manhãs ante a televisão e vincula o seu compromisso político a essas fábulas marxistas, protagonizadas pela bruxa Avaria, das que em realidade não entendiam nada. Mas sento-me orgulhoso, desde depois, quando alguém mais jovem que eu se me acerca para me agradecer esses guiões, que hoje sem dúvida não emitiria nenhuma cadeia de televisão. Éramos mais livres nos anos 80 e havia ademais televisão pública.

Estamos nas manifestações, em Gamonal, e escutamos frases sobre mudar o sistema, mas a onde podemos ir com uma classe política inmovilista?

Gamonal, entre outros, é precisamente o sintoma de um mal-estar social que não conta já com a classe política, de uma sociedade a cada vez mais afastada das suas instituições e que sabe que para conservar o que lhe estão a tirar precisa auto-se organizar. Estamos a assistir, se querer, ao crepúsculo da transição começada em 1975. Há que começar outra, uma nova transição, a partir da consciência de que o regime político atual -monarquia e bipartidismo- não se sustenta. A desconfiança para a política está plenamente justificada, mas é perigosa: costuma ser a antessala dos destropopulismos e os fascismos. Por isso há que repolitizar o mal-estar e isso só pode se fazer desde fora do atual sistema de partidos.

Estão a escutar os partidos as mudanças que pede a sociedade?

Não, não o estão a fazer. E, como te dizia, o perigo é que surjam desde a direita ou inclusive desde a extrema-direita novas forças que explodam o merecido descrédito da maior parte dos partidos. "Não nos representam" era o grito unânime da sociedade espanhola que acordou com o 15-M. Se essa rejeição não se converte em uma proposta política bem articulada e realmente de esquerdas, veremos crescer as alternativas reacionárias, defensivas e agressivas.

Por certo, você publicou Capitalismo e nihilismo em 2007, mudou algo desde então? A priori poder-se-ia dizer que sim: o mal-estar saiu às ruas.

Capitalismo e niilismo analisa o que eu chamo o "niilismo espontâneo da perceção"; isto é, o relacionamento que existe entre o consumo de mercadorias -"consumo" quer dizer etimologicamente "destruição pelo fogo"- e a incapacidade para representar-nos a dor dos outros. Isto é, trato de explicar-me os mecanismos materiais de produção de indiferença. Não é que sejamos maus ou mais maus que em outras épocas. É que no-lo comemos tudo: as hamburguesas e os gelados, mas também as paisagens, os corpos e a miséria dos corpos. Inclusive ou sobretudo as imagens da miséria dos corpos. O supermercado e a televisão formataram-nos de maneira que não possamos estabelecer conexões, nem racionais nem emocionais, entre nós e as dores que ponteam o planeta. Mas estamos realmente formatados? O sujeito está a tal ponto "niilizado" que é impossível toda a reação? O que demonstrou o 15M é que, baixo essa construção de consumo indiferente, como no duplo fundo de um sombreiro de prestidigitador, tinha uma pomba: outro sujeito, ancorado na indignação e a solidariedade, que não se deixa subornar por mercadorias baratas e que reclama democracia, justiça social, Estado de direito.

Alguém me disse uma vez: "não sejas niilista, porque é o fácil". E, no entanto, como desterrar esse niilismo quando crescemos e mamado este sistema capitalista selvagem liberal que se apoia no conceito mais brutal da liberdade?

São as dissonâncias as que permitem as resistências. Hoje as novas gerações estão a descobrir a dissonância entre esse "conceito brutal de liberdade" e a pequena liberdade de curar-se uma doença, educar-se livremente, cuidar aos seres queridos, ter uma casa, expressar-se em voz alta. A crise, e as respostas políticas à mesma, aprofundam essa dissonância, da que a tua pergunta é já uma prova. Digamos que a cada vez se ajustam pior as nossas necessidades e as nossas representações. Por dizer de uma maneira cursi e simples: os humanos pedem amor e o capitalismo dá-lhes pornografia (e de pagamento). O niilismo acaba chocando com a finitude e pequenura dos corpos, que são muito frágeis e estão muito precisados de cuidados.


Outros livros teus são Dejar de pensar e Volver a pensar. Recordam-me, pelos títulos, aos que apareceram faz um par de anos Indignai-vos, Reacciona etc. Que de bom trouxeram estas receitas? calaram? A indignação e a reação estão a levar-nos a algo?


Não trouxeram por enquanto as transformações estruturais que precisamos, mas sim um murmullo de lutas e pequenas vitórias: pensemos em Gamonal ou na Marea Blanca em Madrid. As lutas alimentam-se de grandes indignações e pequenas vitórias. As grandes indignações coletivas obrigam a pensar em comum; as pequenas vitórias ajudam a seguir juntos. Esse é o processo de organização que se está gestando.

Recentemente publicaste uma coluna titulada Podemos sim, mas queremos?. Por que se propõe precisamente esse "queremos" a respeito da mudança? Que falha?

Não tenho uma resposta definitiva, mas me dá a impressão de que, desde a esquerda, o que falhou foi o vínculo com as maiorias sociais. A esquerda institucional tem-se alienado o seu apoio enredando-se em umas instituições contaminadas pelo oportunismo e a corrupção; a extrema esquerda fazendo questão de discursos e modelos que as maiorias não podem nem entender nem desejar. Em frente a esta rutura do vínculo com a sociedade, os átomos da esquerda procuraram uma unidade impossível, à margem da gente, impossível precisamente porque não estava ancorada na realidade. Como o dizer? O 15M demonstra que uma boa parte da sociedade quer; o problema é que a esquerda organizada não quer o mesmo. Digamos que a esquerda não pode -se unir- porque não quer unir ao exterior, à gente que quer outro modelo, outras práticas, outro discurso.

É Podemos o que se esperava após o 15M?

Não sê que esperava o 15M, que é mais uma constelação de impulsos que uma vontade homogénea. O que sim acho é que Podemos trata de recolher esse impulso, essa voz inesperada surgida entre e contra o que eu chamo os dois bipartidismos: o bipartidismo dirigente (PP e PSOE) e o bipartidismo da esquerda (IU e esquerda extraparlamentaria). O que sim é verdadeiro é que o impulso 15M precisava uma expressão pública e política. Podemos é uma boa oportunidade. Uma proposta. Mas que vá ou não mais longe dependerá precisamente das pessoas e coletivos implicados nela.

Vemos que nem o PSOE nem IU conseguem aunar à esquerda, a cada vez mais fragmentada... por que é impossível nos pôr de acordo? Nisto está a ganhar também a batalha o capitalismo, o individualismo, esse niilismo do desencanto?

Eu deixaria a um lado ao PSOE, que faz parte do coração do sistema e que -inclusive se alberga ainda a algum esquerdista extraviado- faz séculos que não tem nada que ver com a esquerda. Quanto ao resto, disse-o faz um momento: quando se pedaleia no ar, acelerar não nos acerca ao nosso objetivo: singelamente rebentamos. Não podemos seguir pensando que podemos pôr-nos de acordo entre nós quando se nos está dizendo desde fora: "não nos representam". A iniciativa tem que vir do exterior. Esse exterior, é verdade, é muito complexo e aí esse "niilismo" segue tendo vantagem; por isso mesmo, se não fazemos em seguida uma proposta, a direita, melhor organizada e com mais médios, acabará explodindo o "desencanto".


Alguém disse em algum momento também: "se o que não se entende é que ainda nada tenha estorado com os seis milhões de parados que há?. Vem esta parálise do torturante mensagem: "nada, nem uma manifestação nem nada, fará com que as coisas mudem?"

Sim, essa é a estratégia do governo: indiferença e criminalização, de maneira que os cidadãos acabem assumindo a impotência com a mesma naturalidade com que a aceitam ter uma perna ou uma parede no salão. Por isso são tão importantes as pequenas vitórias. A greve de lixos em Madrid, as lutas na previdência, a PAH e Gamonal demonstram, ao invés, que -aparte a dignidade- as mobilizações rendem fruto. Essas pequenas vitórias nossas são em realidade grandes derrotas do governo.

A cultura, a cada vez mais comercial, e se não autogestionada. Que opina de todos estes projetos "low cost", sacados com quatro euros? Algo ilusionante ou uma precarização da cultura (ou gestão cultural)?

As duas coisas. Um efeito da crise é que ficaram fora do mercado centos de milhares de jornalistas, escritores, músicos e artistas comprometidos e com vontades de fazer coisas. Esses projetos "low cost" permitem mobilizar e sacar à luz os seus talentos. O problema é que, em general, são costeados por outros jornalistas, escritores, músicos e artistas comprometidos que estão na mesma situação. Os trabalhadores culturais devem compreender que a sua situação é muito parecida à dos outros setores e que a solução é política e coletiva. A dificuldade, neste caso, reside na própria particularidade do trabalho cultural: com poucos meios obtêm-se grandes prazeres (pintar, escrever, compor, ao invés que pôr tijolos ou servir emburguesas, são atividades autosatisfactorias). Não há nada mais autenticamente alienante, mais alienantemente verdadeiro, que a autosatisfacción.

Confia em que de toda esta crise, deste mal-estar existente, sairá algo diferente, uma sociedade nova mais participativa? Confia em movimentos como a PAH?

Sim, confio muito em movimentos como a PAH, que introduzindo pequenos efeitos concretos a nível da solidariedade imediata educam politicamente de maneira bem mais efetiva que os grandes discursos abstratos (que não há que desdenhar). E que ademais mobilizam em torno de consignas de sentido comum nas que todos, salvo os bancos, se podem reconhecer.

Vive na Tunísia desde faz anos, como observa o que está a acontecer em Espanha desde ali? Para onde acha que vamos?

Com muita preocupação. Tunísia é um país que sai de uma ditadura, com limites muito parecidos aos de Espanha, e Espanha um país que retrocede para a ditadura. Espanha e Tunísia parecem-se bem mais do que se reconhecem. Seria bom que Tunísia não se obsedasse com seguir os passos de uma Europa que se desmorona e que a Europa do sul olhasse para a Tunísia e compreendesse de uma vez que a saída à crise -e a recuperação da democracia- tem uma dimensão mediterrânea inexcusável.

01/04/14

O golpe de 1964 como uma ação de classe: uma polémica com certas tendências da historiografia brasileira

Demiam Melo. Artigo tirado do portal Esquerda.net (aqui).  Demian Melo é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e professor substituto do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. (texto publicado originalmente na edição de fevereiro da Revista Verdade, Justiça e Memória, do ISER) Retirado do Blog Convergência

Um grande negócio para o grande capital, é como se pode sintetizar a ditadura de 1964 a partir de sua história. Mas as visões relativizadoras do golpe e da ditadura procuraram deslocar a sua explicação da problemática do capitalismo. Por Demian Melo
 
 
 
O projeto vencedor foi um movimento das classes dominantes lideradas pelas Forças Armadas e apoiadas pelo imperialismo norte-americano.



A primeira parte do documentário de Patricio Guzman, A batalha no Chile, cujo tema é o golpe contra Salvador Allende, é denominado de “A insurreição da burguesia”.[1]  Como o próprio subtítulo indica, seu autor atribuiu àquele 11 de setembro de 1973 não simplesmente o sentido de uma intervenção militar contra um governo constitucional de esquerda; nem simplesmente o de uma intervenção de “civis” e militares interrompendo um regime democrático; mas o de uma ação das classes dominantes chilenas articuladas ao imperialismo norte-americano. Para além do terrorismo de Estado, o caráter de classe do golpe chileno seria logo evidenciado pela rápida implantação de políticas económicas neoliberais, estabelecendo uma experiência pioneira na aplicação das ideias de Hayek, Friedman, e seus epígonos. [2]

Quase uma década antes, o golpe de 1964 no Brasil foi entendido por uma série de críticos numa chave muito próxima à de Guzman quando interpretou os eventos chilenos. Embora por aqui o projeto vencedor não tenha sido o neoliberal, não há dúvida de que também consistiu num movimento das classes dominantes lideradas pelas Forças Armadas e apoiadas pelo imperialismo norte-americano. Não obstante a natureza militar da operação golpista e da ditadura que se seguiu, a reflexão crítica sempre procurou compreender esse processo como parte da dinâmica mais geral do capitalismo brasileiro, buscando estabelecer a relação entre o “Big business”, os núcleos do poder e a política daquele regime.

Florestan Fernandes, ao caracterizar, em A Revolução Burguesa no Brasil, a natureza contra-revolucionária da modernização capitalista brasileira, considerou o golpe e a ditadura iniciada em 1964 como uma exacerbação da natureza autocrática da nossa classe dominante. Se na República de 1946 a dominação política foi feita com a manutenção de procedimentos típicos de uma democracia-liberal, dando à autocracia burguesa um aspeto velado, com a ditadura militar a burguesia continuaria seu “baile sem máscaras”, concluía o sociólogo paulistano.[3]

Em seu influente ensaio Crítica à razão dualista, escrito no contexto do chamado “Milagre brasileiro”, Francisco de Oliveira também discutiu as condições sob as quais o regime ditatorial, ao contrário de estagnar a economia, [4] foi eficiente em acelerar a acumulação capitalista no Brasil, aceleração essa que se tornou possível graças às condições de uma super-exploração da classe trabalhadora estabelecida pelo regime ditatorial.[5] De acordo com o autor, a brutal concentração de riqueza e a repressão salarial – facilitada pela desarticulação da vida sindical – teriam criado as condições para a retomada do ciclo económico, com a recuperação das taxas de lucro. Oliveira concluiu seu raciocínio com as seguintes palavras:

(…) o pós-1964 dificilmente se compatibiliza com a imagem de uma revolução económica burguesa, mas é mais semelhante com o seu oposto, o de uma contra-revolução. Esta talvez seja sua semelhança mais pronunciada com o fascismo, que no fundo é uma combinação de expansão económica e repressão.[6]

Não é por acaso que o auge da repressão tenha sido justamente no período do “milagre”, como, a-propósito, também apontaram Rui Mauro Marini e Theotônio dos Santos.[7] Autores que partiriam de registos teóricos distintos também enfatizariam a forte imbricação da ditadura militar brasileira com a dinâmica do capitalismo, como, por exemplo, Guilllermo O’Donnell em seu conceito de “Estado Burocrático Autoritário”.[8] Pensado como um tipo ideal weberiano para caracterizar as ditaduras do Cone Sul dos anos 1960, tais regimes teriam como sentido aprofundización da forma de capitalismo dependente que emergiu no subcontinente na década de 1950. Deste modo, tanto as experiências argentina de 1966-1973 quanto a brasileira iniciada em 1964 caracterizavam-se, segundo O’Donnell, pelo fato de serem regimes que buscaram criar as garantias institucionais que permitiriam a acumulação capitalista dependente. A despeito da experiência argentina ter sido um enorme fiasco, principalmente em comparação com o Brasil (que viveu seu “milagre” entre 1968-1973), o pesquisador encontrou a importante conexão histórica entre aquela nova forma de autoritarismo emergente com as ditaduras militares e as necessidades do padrão capitalista dependente recuperar as condições para o seu pleno desenvolvimento.

Com o trabalho do cientista político uruguaio René Armand Dreifuss, 1964, a conquista do Estado, o esclarecimento sobre a ação das classes dominantes naquele período-chave da história brasileira ganhou maiores contornos.[9] A partir de extensa documentação, Dreifuss estudou a fundo duas entidades centrais no processo político que conduziu ao golpe de 1964 – o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) –, buscando entender aquela “insurreição da burguesia” como resultado da ação organizada do setor mais internacionalizado do empresariado brasileiro. Tendo emergido como um capital multinacional e associado a partir do desenvolvimentismo do período Juscelino Kubitschek (1956-1961), tal fração de classe organizada por seus intelectuais orgânicos no IPES tornou esta entidade da sociedade civil um dos principais centros da conspiração que depôs o presidente João Goulart, apoderando-se do aparelho de Estado através da ocupação dos seus postos estratégicos. Áreas estratégicas como o Planeamento e a Fazenda ficariam desde o governo Castelo Branco (1964-1967) até o fim do regime, em mãos de ipesianos como Delfim Neto, Roberto Campos, Otávio Gouveia de Bulhões, entre outras eminências pardas civis.

Dreifuss demonstrou que, uma vez no poder, o IPES (como representante dessa fração internacionalizada do capital) conseguiu implementar grande parte de seu programa anteriormente formulado, empreendendo transformações importantes no arcabouço institucional de regulação do capitalismo brasileiro, através de uma vasta Reforma Administrativa, da criação do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, introduzindo a primeira flexibilização da legislação trabalhista no Brasil – através da lei do FGTS – entre outras medidas no interesse do capital monopolista, além do Serviço Nacional de Informações (SNI), criado ainda em 1964 pelo general Golbery do Couto e Silva, ativo dirigente do IPES.

O “Big business” da ditadura
Um grande negócio para o grande capital, é como se pode sintetizar a ditadura de 1964 a partir de sua história. Em primeiro lugar, uma das resultantes daquele processo de aceleração da acumulação capitalista foi, além de uma expansão da fração do capital ligada à indústria de bens duráveis, o fortalecimento de outras frações das classes dominantes nacionais, cujos agentes teriam maior peso sobre o Estado no período subsequente. Como exemplos eloquentes, pensemos o empresariado ligado à construção civil (como os grupos Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior e Odebrecht), à indústria pesada (Gerdau, Votorantim, Villares, entre outros), sem esquecer o sistema bancário (de que são exemplares os grupos Moreira Salles, Bradesco e Itaú), grupos que construíram ou consolidaram seus “impérios” naquele contexto.[10]No ramo das telecomunicações, a maior empresa do país, a Rede Globo, cuja trajetória de colaboração com o regime ditatorial está bem descrita no documentário Muito Além do Cidadão Kane, de Simon Hartog (Reino Unido, 1993), deve ser incluída na lista.

O auge da repressão no período do “Milagre brasileiro”, a política permanente de arrocho salarial, garantindo lucros faraónicos ao grande capital e certa euforia do consumo entre setores consideráveis das classes médias, são certamente elementos que compuseram a relação de forças sociais estabelecida pelo regime. Não por mera coincidência, desde 1964 solidificaram-se aquilo que Paulo Arantes denominou de “vasos comunicantes” entre o mundo dos negócios e os subterrâneos da repressão que desembocariam na criação da Operação Bandeirantes e posteriormente os DOI-CODI, [11] como, a propósito, ficou bem evidenciado no recente documentário de Chaim Litewski, Cidadão Boilesen, de 2009.

Com a crise estrutural do capitalismo nos anos setenta, se exauriu uma das principais fontes de financiamento daquele “modelo” – o endividamento externo –, justamente no contexto em que era necessário um novo pacote de investimentos para que aquelas taxas de crescimento pudessem ser mantidas. A outra importante fonte de financiamento, que eram os excedentes resultantes do próprio ciclo interno de reprodução do capital, não eram suficientes para manter o ciclo ascendente por muito tempo. Depois de dez anos de política de arrocho, o sistema possuía limites estruturais para garantir a recuperação da taxa de lucro simplesmente a partir do aumento da mais-valia absoluta.[12]

Somadas a outros fatores, as contradições sociais do “modelo” explodiriam no fim da década de 1970, quando das memoráveis greves operárias do ABC paulista, principal ponto de concentração da indústria de bens duráveis no Brasil, particularmente a automobilística, um dos ramos mais beneficiados pelo “Milagre”. Por entre as falas das lideranças operárias que organizaram aqueles movimentos, a denúncia do “arrocho” como política da ditadura para a classe trabalhadora foi uma constante. A falsificação dos índices de inflação, [13] que tornaria o nome do ministro Delfim Neto “famoso” entre os trabalhadores, não pode ser compreendida sem que estabeleçam os nexos reais entre aquela ditadura e o grande capital.

Aquela atmosfera conflituosa do final dos anos 1970 seria marcada pelo apelo do empresariado paulista aos aparelhos de repressão do Estado para coibir o protesto operário no mesmo momento em que o regime falava de abertura. Não era propriamente o projeto de abertura, mas o II Plano Nacional de Desenvolvimento do general Ernesto Geisel (que privilegiou o setor de bens de capital em detrimento do de bens duráveis), que criou atritos entre frações do capital e o governo. Mas tão logo o protesto operário saltou ao centro da cena política, a capricho foi posto de lado. Seja convocando a repressão direta das polícias estaduais paulistas (militar e civil); seja pela utilização dos instrumentos da estrutura sindical corporativista (pois, respondendo o apelo dos industriais, o ministro do Trabalho, Murilo Macedo, lançou todos os recursos discricionários disponíveis como a cassação das lideranças sindicais, intervenção em sindicatos etc. para desmantelar a greve), os fortes compromissos do regime com o capital em seu conjunto explicitaram-se mais uma vez. Caso não entendamos esses vínculos profundos, podemos acabar nos contentando com uma denúncia da “maldade do sistema”, correndo o risco de justamente não captar o que dava sentido às sistemáticas violações dos direitos humanos no Brasil (e no restante do Cone Sul) naquela quadra histórica.

Não foi assim descabido que a intelectualidade crítica não tivesse dúvidas em vincular o “terror de Estado” ao “Big business”. E não foi por acaso que alguns opositores do regime recorreram à “expropriação de bancos” como forma de financiar a sua luta, enquanto o grande empresariado nacional juntou-se ao regime para organizar a brutal repressão à resistência armada.

Buscando apreender criticamente esse processo, trabalhos como o de Dreifuss começariam a propor uma formulação conceitual tanto para o golpe quanto para a ditadura a partir do adjetivo “civil-militar”, tendo “civil” aí um sentido claramente classista. Entendendo esses civis, como vimos, como parte de uma elite organicamente ligada aos interesses do capital multinacional e associado, o cientista político uruguaio nos ensina algo de fundamental sobre aqueles “civis” que fizeram parte do IPES:

Um exame mais cuidadoso desses civis indica que a maioria esmagadora dos principais técnicos em cargos burocráticos deveria (em decorrência de suas fortes ligações industriais e bancárias) ser chamada mais precisamente de empresários, ou, na melhor das hipóteses, de tecno-empresários.[14]

Todavia, nesses tempos que correm, o termo “civil-militar” tem servido mais para criar uma mistificação do processo histórico, qual seja, a de que a “sociedade” foi cúmplice daquela ditadura. A verdade é que o próprio termo presta-se à equívocos, por que pode levar a uma utilização na qual se passa a compartilhar a ideologia corporativa própria dos militares, que concebem a sociedade dividida entre eles e os “civis”. Certamente não foi nesses termos simplórios que Dreifuss propôs a noção de “civil-militar”. Vejamos isso mais de perto.

revisionismo histórico sobre o golpe de 1964 e a ditadura
Foi nos anos 1990 que ganharam força no Brasil visões relativizadoras do golpe e da ditadura. A primeira operação realizada por essa “nova” literatura – que já discutimos em outro lugar a partir do conceito de revisionismo –, [15] foi a de deslocar a explicação daquela ditadura da problemática do capitalismo. Sob o argumento falacioso segundo o qual conectar o processo político à dinâmica económicaseria o mesmo que “economicismo”, uma leitura “politicista” veio propor como explicação para o golpe e a ditadura um suposto “deficitdemocrático” na sociedade brasileira, de acordo com o qual, nos idos dos anos sessenta, tanto a direita quanto a esquerda seriam igualmente “golpistas”. Um raciocínio que, antes de mais nada, beira a tautologia e se aproxima do de algo como: “existiu a ditadura por que não éramos democratas!”

O trabalho que inaugura este revisionismo histórico sobre o golpe de 1964 é o livro da cientista política Argelina Cheibub Figueiredo, Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política: 1961-1964.[16] Fruto de sua tese de doutorado em Ciência Política na Universidade de Chicago, a autora foi a primeira a propor uma abordagem alternativa ao livro de Dreifuss. Em seu livro, nos dois momentos em que visa criticar diretamente Dreifuss (na Introdução e no capítulo 6) Argelina afirma categoricamente que, em 1964, a conquista do Estado, “os conspiradores são vistos como omnipotentes. Consequentemente a ação empreendida por eles não é analisada em relação a outros grupos, nem vista como sendo limitada por quaisquer constrangimentos externos.”[17] Inaugurava-se assim uma longa e paupérrima tradição nos balanços bibliográficos sobre 1964 a partir do qual a obra de Dreifuss seria classificada como “conspiracionista”.

A questão é que, ao contrário do que afirma Argelina Figueiredo, no livro de Dreifuss a crise económica, combinada ao colapso das estruturas políticas, é justamente o que compõe a “crise orgânica”, conceito chave que o autor retira de um dos cadernos de Gramsci para caracterizar as condições sobre as quais se processaram as lutas políticas no início dos anos 1960 no Brasil. Deste modo, não há uma conspiração que se desenvolve sem “constrangimentos externos”. Pelo mesmo motivo, não há uma “narrativa linear” em Dreifuss, como se o golpe fosse um resultado “mecânico” da conspiração ou mesmo da supremacia económicado capital multinacional e associado. Ao contrário, como é possível apreender da leitura de 1964, a conquista do Estado, foi na luta concreta que essa fração do capital (através do IPES) tornou-se a mais dinâmica das conspirações contra o governo João Goulart, derrotou o bloco nacional-reformista aliado ao movimento popular e, por fim, conquistou o Estado. A ocupação de postos dos quadros do IPES no aparelho de Estado e a implementação de diversas propostas absolutamente centrais do Plano de Ação Económicado Governo (PAEG) são dados simplesmente negligenciado por Argelina Figueiredo. Quanto à conspiração, embora reconheça a sua existência, considera que Dreifuss à supervaloriza. Em seguida, a pesquisadora simplesmente abandona qualquer consideração sobre a mesma em sua própria explicação para o golpe, algo absolutamente estranho numa proposta de abordagem do processo político que visa discutir o “comportamento estratégico” dos “atores políticos relevantes”.

Como explicação alternativa, a autora nos apresenta a ideia de que entre 1961-1964 “as escolhas feitas pelos atores estratégicos” solaparam as possibilidades de “reformas dentro das regras do jogo”, estreitando o campo de ação do governo Goulart e levando água ao moinho dos golpistas. Assim, o acirramento da radicalização teria criado um consenso negativo quanto à possibilidade de resolver os conflitos dentro dos “marcos institucionais”. Para a autora, em pelo menos duas oportunidades esboçou-se a possibilidade de uma saída conciliatória para a crise política: durante o parlamentarismo e no início de 1963, quando o governo tentou implementar o Plano Trienal do ministro Celso Furtado. No primeiro caso, a autora condena Goulart por ter deixado de “aproveitar” o parlamentarismo, preferindo desmoralizá-lo; no segundo, condena as esquerda por terem sido “apressadas”, pois obviamente o Plano Trienal desagradou os movimentos populares frustrados com a diretiva da ortodoxia monetarista que previa a contenção salarial como forma de deter a inflação. Para a autora, após o fracasso dessas implausíveis possibilidades, estreitou-se o campo de ação do governo, fazendo crescer o poder daqueles que acabaram por depor o governo, acabando com a democracia e a possibilidades de reformas.

Por fim, é necessário fazer uma observação sobre a natureza ideológica do problema que orienta o trabalho de Argelina Figueiredo. Afinal, tal oposição entre “democracia” e “reformas” é sintomática da adesão a um conceito específico de “democracia” que se liga ao pensamento neoliberal, cuja agenda esteve ligada ao desmonte dos direitos sociais (e parte dos políticos) e à redução do regime democrático aos marcos da conceção schumpeteriana.[18] De tal conceção, deriva uma outra, qual seja, a de que seria possível “negociar”, com base nesse suposto “acordo” entre todos os “atores políticos relevantes”, um programa de “reforma agrária moderado”, como também o restante das “reformas de base”. Assim, de acordo com a pesquisadora, o que teria faltado mesmo foi a disposição dos tais “atores políticos relevantes” para negociar uma saída que “preservasse a democracia”.

Numa historiografia que começaria a ser produzida no início os anos 2000 e que ganharia grande repercussão no contexto dos quarenta anos do golpe de Estado (2004), as teses revisionistas de Argelina Figueiredo encontrariam guarida, como pode ser aferido nos trabalhos do professor Jorge Ferreira (do Departamento de História da UFF), que explicitamente a toma como referência. Em inúmeros artigos em revistas académicas e de divulgação científica, em capítulos de livros e em sua recente biografia de João Goulart, a explicação do golpe de Estado de Jorge Ferreira está centrada nesse suposto “deficit democrático”, através de uma narrativa na qual, tal como em Argelina Figueiredo, a luta de classes e a própria conspiração estão ausentes. Ao contrário, Ferreira desqualifica tanto o trabalho de Dreifuss quanto o de Moniz Bandeira[19]justamente pela ênfase que esses dois pesquisadores deram tanto à luta de classes, quanto à conspiração. Também negando relevância a conspiração como elemento explicativo, o autor explica o processo político brasileiro onde “as direitas” sempre aparecem “assustadas com a radicalização das esquerdas”, o que aponta aonde tais inovações historiográficas podem nos levar: “Entre a radicalização da esquerda e da direita, uma parcela ampla da população apenas assistia aos conflitos, silenciosa.”[20]

Esse revisionismo vem ganhando importante lugar na produção de uma literatura destinada ao grande público. Em seu já famoso livro Ditadura envergonhada, o jornalista Elio Gaspari afirma, como se fosse auto-evidente, que em março de 1964 existiam “dois golpes em curso”, o de Jango e o dos militares. A sua explicação é que “o país estava uma bagunça” e, temendo o golpe de Jango, os militares simplesmente “chegaram antes”.

Havia dois golpes em marcha. O de Jango viria amparado no “dispositivo militar” e nas bases sindicais, que cairiam sobre o Congresso, obrigando-o a aprovar um pacote de reformas e a mudança das regras do jogo da sucessão presidencial.[21]

E quais as evidências que sustentam esta afirmação? A carta de um coronel golpista, o livro pró-golpe de Glauco Carneiro e um memorando do embaixador norte-americano Lincoln Gordon. Mais uma vez, nenhum tipo de evidência minimamente confiável.[22] Os intragáveis guias politicamente incorretos disso e daquilo, ladeados pela biografia do ex-presidente deposto escrita por Marco Antonio Villa, que acusa Jango de golpismo, veem somando-se a essa onda.[23] É de fato curioso: tanto na biografia quase hagiográfica de Ferreira, quanto na escrita por um direitista como Villa – que pauta toda sua explicação na suposta “incompetência” de Goulart – convergem para uma explicação similar do golpe de 1964.

Enquanto isso, no âmbito dos estudos dedicados à ditadura propriamente, o argumento do “deficit democrático” ganha ares de uma condenação generalizada às oposições armadas, em leitura proposta por um historiador de passado ligado a tais correntes. Sob o argumento de que ainda sob o regime de terror os compromissos da esquerda com a democracia não se faziam existir (já que estas queriam “implantar outra ditadura”), Daniel Aarão Reis ganhou expressivos setores académicos e da opinião pública para a reprodução do que, afinal, sempre foi um dos argumentos principais dos golpistas e ditadores de plantão.

Em livro publicado em 2000, denominado Ditadura militar, esquerdas e sociedade, além de esposar a tese de que em 1964 os sinais se inverteram e foi a direita que apareceu ao lado da “defesa da Constituição” (uma tese, a propósito, dos próprios golpistas) – pois a esquerda “radicalizou” e passou a defender as “reformas na lei e na marra”, diz –, o historiador propôs que o novo marco para o fim da ditadura fosse 1979, em razão da revogação do AI-5 e da promulgação da Lei de Amnistia, que permitiu a volta dos opositores exilados.[24] Recentemente, o autor tem insistido na natureza “civil-militar” da ditadura, mas parece bem distante do sentido dado a este termo no citado trabalho de René Dreifuss.

Deslocando o capitalismo do centro da reflexão sobre o sentido da ditadura, a historiografia revisionista coloca em seu lugar um programa de pesquisas dedicado a investigar o “apoio” da “sociedade” ao “autoritarismo”, incorporando perspetiva muito próxima ao revisionismo sobre o Nazismo que nos anos 1990 apareceu no livro do politólogo norte-americano Daniel Goldhagen, Os carrascos voluntários de Hitler. Embora rechaçada pela maior parte dos especialistas, justamente por culpar “todos os alemães” pela Shoà, um ponto de vista semelhante ao de Goldhagen parece estar presente nesses trabalhos interessados em apresentar o que seria a “opinião dos brasileiros sobre a ditadura” – algo evidentemente metafísico e mistificador.

Depois de explicar o golpe através da afirmação de que a esquerda também era “golpista” e “autoritária”, o que se passa a dizer agora é que também a “sociedade brasileira” foi cúmplice daquela ditadura. Nessa visão, a “sociedade” é tratada quase como se fosse uma pessoa, algo, aliás, presente no paradigma liberal – que a define como uma “soma de indivíduos” – e que engendra argumentos como os de que “não é possível vitimizar a sociedade”, ou de que, sendo pessoa, deveria “se colocar na frente do espelho”. Em recente intervenção nesse debate, [25]Daniel Aarão Reis elencou três argumentos com os quais queria provar o tal “apoio da sociedade” à ditadura:

1) as Marchas com Deus, pela Pátria e Família, organizadas antes (em São Paulo) e depois do golpe de Estado (no Rio de Janeiro, capitais e muitas cidades do país);
2) as votações expressivas no partido de apoio à ditadura – Aliança Renovadora Nacional (Arena);
3) e a suposta popularidade do presidente general Emílio Médici (1969-1974).

Vejamos a consistência desses elementos. Em primeiro lugar, sim as marchas em apoio ao golpe e à ditadura já instalada foram massivas, afinal, ao contrário do que afirmou Jorge Ferreira, o povo “não assistiu bestializado” ao golpe de Estado, pois uma parte dele certamente o apoiou com algum grau de ativismo. Essa é, aliás, a natureza da crise dos anos 1960: a sociedade estava divida, à esquerda e à direita. Os derrotados obviamente não poderia se manifestar.

Em segundo, o argumento da “expressiva votação da Arena” não leva em conta que parte não desprezível da oposição ao regime pregou o voto nulo como forma de denunciar a farsa de ter de escolher entre o partido do “sim” (ARENA) e o do “sim senhor”, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), oposição consentida. O próprio autor, em seu supracitado livro Ditadura militar, esquerdas e sociedade havia enfatizado a enorme proporção de votos nulos e brancos nas eleições de 1966 e 1970,[26] mas hoje prefere abandonar esse elemento que afinal esclarece como parte da sociedade brasileira não colaborou nem apoiou aquela barbárie. Aliás, nas eleições de 1974, quando o regime afrouxou o controlo sobre a propaganda eleitoral, o voto oposicionista foi vencedor, ainda sob o agora “popular” Médici.

Certamente nos anos Médici a ditadura viveu seu auge, o “Milagre brasileiro” e o desbaratamento da oposição anti-sistémica simbolizaram a vitória dos preceitos que em 1964 conquistaram o Estado. A modernização capitalista e a contra-revolução estavam plenamente vitoriosas.[27] E certamente, essa supremacia, somada ao amplo uso de publicidade estatal (combinada a uma dose cavalar de coerção) produziu certo consenso, mas é preciso não exagerar. Pois o mínimo que se espera é que os historiadores sejam capazes de problematizar certas fontes, como o são as pesquisas de opinião feitas num contexto de uma ditadura. Imaginemos como qualquer opositor – seja revolucionário, reformista, de esquerda, liberal, democrático ou tropicalista – do regime ditatorial procederia em face de um entrevistador que lhe perguntasse o que achava do comandante em chefe da ditadura? Imagine-se alguém que ele nunca viu na vida na saída do estádio do Maracanã nos idos dos anos 1970 perguntando se o “presidente” Médici estava sendo “bom para o país”? Se não quisesse cometer suicídio, obviamente responderia o quão lindos eram o país, seu “presidente” e as Forças Armadas nacionais. Muito menos a euforia com o tricampeonato mundial de futebol (1970), a frequência a festividades cívicas, ou os aplausos ao general Emílio Garrastazu Médici nos estádios de futebol, podem ser contabilizados como provas suficientes de que apenas uns loucos não percebiam que aquele era “um país que vai pra frente”, ainda que, certamente, a ditadura tenha sabido tirar um bom proveito disso tudo.

Considerações finais
Concluo esse artigo com uma breve reflexão sobre as implicações que esse revisionismo histórico encerra para o debate público do tempo presente. Especialmente neste contexto de instalação da Comissão Nacional da Verdade e destas bem-vindas manifestações feitas por jovens e velhos combatentes das esquerdas na frente das casas de torturadores – os escravos. Como já tive a oportunidade de escrever, tais proposições aqui criticadas acabam por desaguar numa espécie de “amnistia historiográfica”, [28] ao atribuir homogeneamente as responsabilidades pelo “autoritarismo” à “sociedade brasileira”. A história da ditadura precisa sempre ser reescrita a cada geração, [29] e a crítica a essas novas abordagens não pode ser confundida com uma simples defesa das abordagens clássicas, ainda que estas devam ser valorizadas, em vez caricaturizadas.

Termino com o que pode ser uma síntese das nossas proposições. Como a própria forma como essa corrente revisionista vem utilizando a noção “civil-militar” tem se prestado a confirmar as mistificações aqui alegadas, talvez fosse melhor que nos habituássemos a utilizar outro termo, também proposto por Dreifuss, e que talvez capture com maior precisão a natureza daquele regime: ditadura empresarial-militar.


[1] GUZMAN, Patrício. A batalha no Chile (Cuba, Chile, França, 1975).
[2] HARVEY, David. O Neoliberalismo: história e implicações. 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2011, p.17-19.
[3] FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p.340.
[4] Como acreditava Celso Furtado. Cf. FURTADO, Celso. Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
[5] Publicado originalmente em 1972, o ensaio recentemente foi republicado em: OLIVEIRA, Francisco. Crítica à razão dualistaO Ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.
[6] Idem, p.106.
[7] A tese seria contestada por Fernando Henrique Cardoso e José Serra nos anos setenta, uma vez que estes estavam interessados em convencer o empresariado nacional de que não haveria afinidade eletiva entre repressão e crescimento económico, e de que deveriam apoiar a redemocratização.
[8] O’DONNELL, Guilermo. Reflexões sobre os estados burocrático-autoritários. São Paulo: Vértice; Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 1987.
[9] DREIFUSS, René Armand. 1964, a conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981.
[10] Cf. CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. A Ditadura dos Empreiteiros: as empresas nacionais de construção pesada, suas formas associativas e o Estado ditatorial brasileiro, 1964-1985. Niterói, 2012. Tese de doutorado em História. Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.
[11] ARANTES, Paulo. “1964, o ano que não terminou.” In. TELES, Edson & SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que resta da ditadura. São Paulo: Boitempo, 2010, p.206.
[12] MENDONÇA, Sônia Regina de. Estado e economia no Brasil: opções de desenvolvimento. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p.101.
[13] Reveladas pelos estudos do Departamento Intersindical de Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE) e que embalaram as campanhas por reposição das perdas salariais (e que dariam origem ao ciclo grevista).
[14] DREIFUSS, 1964, op. cit., p.417, Grifo nosso.
[15] MELO, Demian. “A miséria da historiografia.” Outubro, São Paulo, n.14, p.111-130, 2006. Disponível em http://www.revistaoutubro.com.br/edicoes/14/out14_06.pdf
[16] FIGUEIREDO, Argelina Cheibub. Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política: 1961-1964. São Paulo: Paz e Terra, 1993.
[17] Idemibidem, p. 28.
[18] Sobre a importância das proposições schumpeterianas na institucionalização das democraciasrealmente existentes na América Latina após as ditaduras, ver MACHADO, Eliel. “Limites da ‘democracia procedimental’ na América Latina.” Mediações, v.13, n.1-2, p.260-282, jan/jun e jul/dez. 2008.
[19] BANDEIRA, Moniz. O governo João Goulart e as lutas sociais no Brasil (1961-1964). 8ª edição. São Paulo: UNESP, 2010.
[20] FERREIRA, Jorge. “O governo Goulart e o golpe civil-militar de 1964.” In: Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado (Orgs). O Brasil republicano: o tempo da experiência democrática – da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, v.3, p. 400. Ver também ________. João Goulart: uma biografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
[21] GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.51.
[22] Ver MAESTRI, Mário & JAKOBSKIND, Mário Augusto. “A historiografia envergonhada”Revista História & Luta de Classes. Ano 1, nº 1, 2005, pp. 125-131. Disponível em http://site.projetoham.com.br/arquivos/revistas/hlc1.pdf
[23] VILLA, Marco Antonio. Jango, um perfil (1945-1964). São Paulo: Editora Globo, 2004, p.7-9.
[24] REIS, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
[25] Ver esse argumento em REIS, Daniel Aarão. “Ditadura, anistia e reconciliação.” Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.23, n.45, p.171-186, jan./jun.2010.
[26] Naquele livro ele afirma que nas eleições de 1966 os votos brancos e nulos alcançaram proporções inéditas, e sobre as eleições de 1970 o número destes votos de protesto seria ainda maior, alcançando o índice de 30%. REIS, Ditadura militar, op. cit., p.44 e 59.
[27] LEMOS, Renato. “Contrarrevolução e ditadura no Brasil: elementos para uma periodização do processo político brasileiro pós-1964.” (mimeo) Disponível em http://www.ifcs.ufrj.br/~lemp/imagens/textos/Contrarrevolucao_e_ditadura...
[28] MELO, Demian. “A anistia historiográfica.” Brasil de Fato, 4 de abril de 2012. Disponível em http://www.brasildefato.com.br/content/anistia-historiogr%C3%A1fica
[29] Como ensinou o historiador britânico Christopher Hill: “A história precisa ser reescrita a cada geração, porque embora o passado não mude, o presente se modifica; cada geração formula novas perguntas ao passado e encontra novas áreas de simpatia à medida que revive distintos aspectos das experiências de suas predecessoras.” HILL, C. O mundo de ponta cabeça. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.32.

O copo está meio-cheio ou meio baleiro? Notas sobre o referendo de Anova para a escolha de candidatáveis para as eleições Europeias de 2014

Antom Fente Parada



Segundo se foram conhecendo os resultados apareceram leituras dispares do resultado eleitoral, como acostuma acontecer em todos os processos deste teor. Os dados permitem primar uns sobre outros subjetivamente para fornecer leituras opostas, mas a realidade de Anova atualmente é a que é, distando muito dalgumas leituras idílicas.


A Permanente atual pus o acento em que Lídia Senra recebeu 85% do voto emitido. Este dado é verídico e indiscutível, embora seja duma pobreza analítica maiúscula deter a nossa análise eleitoral aqui. Segundo a atual Permanente, tal e como se recolhe no site oficial de Anova-Irmandade Nacionalista:

Máis do 85 por cento das persoas que exerceron o seu dereito a voto escolleron a labrega Lidia Senra para ser candidata da lista galega ás eleccións europeas. O segundo posto de Anova na lista será ocupado por Carlos Lorenzo Simón, da comarca de Ourense.
A participación, a falta de repasar os datos, foi de máis do 47 por cento, recibindo a candidatura de Lidia 419 votos, una cifra superior á obtida pola opción 1 –ir en coalición coa esquerda federal- no referendo relativo ás alianzas. Carlos Lorenzo recibiu 91 votos.
Con este resultado, unha líder campesiña podería chegar ao Europarlamento, pois Lidia irá no posto 5 da lista de coalición na circunscrición única, condiderado un posto de saída.
Dende Anova-IN queremos resaltar a normalidade da xornada e a radicalidade democrática do proceso.

Lídia Senra recebeu efetivamente 83'3% do voto emitido, mas é inquestionável igualmente que 63 de cada 100 militantes de Anova-Irmandade Nacionalista não participaram e que, quem apostou pela frente ampla no anterior referendo aderiu à abstenção1, entre outros motivos, porque se considerava que o processo e o procedimento apresentavam sérias eivas; pelo descontento com a integração na candidatura estatal de IU; e porque Lídia Senra era uma candidata excelente que, noutras circunstâncias tenho a certeza de que teria obtido um resultado muito maior. Então como é que está o copo, meio cheio ou meio esvaziado?

O referendo transmite mais uma vez uma radiografia da organização fraturada tanto no seu conjunto como territorialmente, algo que deveria fazer reflexionar a todos os sectores de Anova se não se quer cair numa perda constante de contingentes que apenas porão em evidência a inviabilidade de Anova como novo projeto comum para o nacionalismo do século XXI. Deixa ver também que Anova, felizmente, tem um corpo militante muito vivo e plural que evita a existência de qualquer hegemonia. Após dois referendos fica claro que Anova não é o partido de Beiras e sim o partido dos seus 1.230 militantes.

Desta arte, Lídia Senra apenas recebeu o apoio dum terço da militância de Anova, a pesar de ser quase “candidata única” (vê-se bem em que nenhum candidato tem apoios uniformes em tudo o território agás ela), de receber o apoio de Beiras e de toda a atual Permanente (antes de que se conhecesse nenhuma outra candidatura – e ainda o método de eleição–) e a pesar de ser uma pessoa com excelente projeção social e uma trajetória sobradamente conhecida no campo nacionalista.
De 1230 militantes de Anova apenas 419 votaram por Senra, quer dizer 34% da militância. No anterior referendo para a escolha da fórmula eleitoral, celebrado em 23 de fevereiro, a participação foi de 72% (791 votos) ficando desta volta só em 44% (501 votos). Portanto, houve um 28% menos de participação2. Tendo em conta o apoio de Beiras e a trajetória e projeção social duma candidata tão excelente como Lídia Senra uma das conclusões que se podem tirar é que a atual direção de Anova “representa” total ou parcialmente entre 20-30% da militância de Anova. Isto dá-nos ideia de até onde a II AN de Anova será decisiva para marcar o rumo de Anova, ora como projeto político transversal do campo nacionalista, ora como convidado numa fórmula eleitoral fixa que apenas provocará a sua morte – não provavelmente no plano eleitoral, mas sim no plano transformador para o que nasceu–.

Se no anterior processo houve assembleias que apenas participaram, caso de Cangas ou Carvalinho controladas pela FPG, desta volta sim o fizeram achegando 81 votos para a candidatura de Lídia Senra. De fato, no caso de Cangas, ao levarem meses sem pagar, teve que atualizar massivamente as quotas para este processo (em que algumas localdiades receberam até 5 censos pelos numerosos erros contidos a pesar de estarem quase feitos do antior referendo), pois no anterior referendo apenas 30 pessoas tinham direito a voto. Sem estes apoios o resultado teria sido inferior ainda ao colheitado pela integração em IU no anterior referendo.

Se analisamos territorialmente os resultados apenas em 15 mesas votaram mais de 10 militantes: nas 7 cidades, em Cangas, em Teu, em Carvalhinho, em Bergondo, em Ribeira, em Val do Dubra, no Salnês e no Úmia. Ainda podemos engadir que dessas mesas com participação significativamente maior do que nas restantes assembleias de Anova apenas o fizeram num sentido favorável às posições oficialistas em Vigo (58 votos a prol da integração em IU e apenas 40 agora, votando 45 de 120 militantes), Cangas, Teu, Ourense, Ponte Vedra, Lugo, Carvalhinho, Bergondo, Val do Dubra, Ribeira e Úmia.

Vejamos agora todos os resultados na seguinte tábua, em que faltam ainda alguns dados, xa que os dados que oficialmente se fizeram públicos, remetidos desde organização, não incluíam o censo das mesas (entre outros erros importantes). Marcamos em azul as assembleias onde o rechaço à integração em IU e ao procedimento é claro e em verde aquelas que maioritariamente aderiram as teses oficiais. Existem, no entanto, bastantes casos em que a correlação de forças é muito parelha (por exemplo e contra um dos lugares comuns a assembleia de Vigo tanto no anterior referendo como no atual mostra que as duas posturas têm um apoio semelhante).



MESA
Ana Mª Vidal
Lídia Senra
Eduardo Garcia
Julio Villanueva
Bastida
Carlos Lorenzo
Francisco J. Rial
Branco
Nulo
Papeletas
CENSO
A Crunha
3
22
6
0
2
7
0
0
1
26
134
Bergondo
0
14
5
0
1
4
0
0
0
14
25
Ferrol
0
6
0
0
16
2
0
0
1
20
61
Cedeira
0
3
0
0
8
0
0
0
0
9

Taragonha
0
5
0
0
0
0
0
0
0
5

Ribeira
0
8
0
0
1
1
0
2
0
11

Val do Dubra
0
13
0
0
1
0
0
0
0
13
13
Compostela
1
39
5
0
1
6
0
2
1
45

Teu
0
37
0
0
0
2
0
0
0
37

Chantada
0
5
0
0
0
1
0
1
3
9
22
Lugo
0
11
6
0
0
0
0
0
0
11

Marinha
0
7
0
0
0
0
0
0
1
8
17
Montanha Luguesa
0
4
0
0
1
1
0
0
0
4

Lemos
0
0
0
0
0
0
0
2
0
2

Terra Chá
0
1
0
0
3
1
1
1
0
5

Val de Orras
1
4
0
0
1
0
0
1
0
6

Ourense
1
42
1
1
0
32
0
1
0
44

Carvalhinho
0
20
0
0
0
5
1
0
0
20

Maceda de Trives
0
4
0
0
0
3
0
0
0
4

Límia
0
0
0
1
1
0
0
0
0
2
19
Deça
0
6
0
0
0
0
0
0
0
6

Baixo Minho
2
5
0
0
5
0
0
0
0
6
13
Bueu
5
1
0
6
0
0
0
0
0
6
12
Salnês
0
4
0
0
1
1
6
1
1
12
51
Cangas
0
61
29
0
1
2
1
0
0
61
78
Marim
0
10
1
0
0
6
0
0
0
10
12
Ponte Vedra
1
17
2
1
0
2
0
0
0
17

Redondela
0
1
0
0
0
1
0
1
0
2
33
Úmia
0
9
0
0
4
0
6
1
1
11

Val Minhor
0
4
1
0
0
3
0
2
0
6
76
Vigo
0
40
0
0
1
7
0
3
1
45

Diáspora
3
16
2
1
2
4
0
2
0
23

TOTAL
17
419
58
10
50
91
15
20
10
501
1230?


Esta tábua pode ser cotejada com os resultado do anterior referendo. Duma parte vemos como existe uma correlação direta entre opção 1 e apoio a Lídia Senra, que colheita mais apoios do que a opção 1 (mas menos se descontamos os votos de Cangas e Carvalhinho que não participaram no anterior referendo). Doutra parte, vemos como o aumento da abstenção é atribuível às opções 2 e 3 do anterior referendo, assim como o incremento do voto nulo (de 2 a 10) e o voto em branco (de 3 a 20), mais significativo ainda ao ser a participação significativamente menor.




Conclusões

A primeira grande conclusão é que o corpo militante de Anova é plural, diverso e não responde a caricatura externa de que “Anova é o partido de Beiras”. Anova mostrou nos dois referendos que é um organismo vivo, mas profundamente fraturado o que pode pôr em perigo a sua sobrevivência.

Uma segunda questão é que, a pesar de contarem ambos processos com o apoio explícito de Xosé Manuel Beiras, que em Anova é muito mais do que um porta-voz nacional, e a maior parte dos referentes de Anova (Martiño Noriega, Antón Sánchez...) e da sua atual dirigência, incluída a FPG,
a maioria de Anova não adere nem a integração com IU nem o procedimento do atual referendo

Seria igualmente um erro, e este é o terceiro ponto que cumpre sublinhar, acreditar que o setor crítico de Anova aglutina essa maioria. A maioria de Anova nem está com o atual sector oficial nem está com o atual sector crítico, o que exige um exercício de responsabilidade coletiva que veremos se pode materializar-se ou não na II Assembleia Nacional.

A II AN, já que logo, deve incidir em pontos que sim podem restabelecer pontes e marcar a diferença entre a perda de contingentes quantitativamente escassos ou quantitativamente significativos, ameaçando a própria sobrevivência duma organização com uma implantação social ainda muito pequena, máxime se a comparamos – ponhamos por caso- com o outro grande referente de massas do campo nacionalista, o BNG. A militância única, o método de escolha da direção política e a porta-vozia, o respeito pelos acordos de que nos dotamos e a volta à conceção da frente ampla como alavanca para a ruptura democrática e a unidade de ação da esquerda galega são em nossa opinião alguns desses pontos sem os quais Anova não pode completar a decantação associada a tudo processo constituinte que lhe permita restaurar a irmandade e ser uma ferramenta centrada na nação galega, assim como o projecto comum do nacionalismo galego para o século XXI.

Por último, há uma fenda clara entre a Anova rural e a Anova urbana. Nas assembleias urbanas e a sua contorna prima uma conceção mais pós-moderna e líquida – associada à retórica da nova cultura política do que já tenho falado3–, enquanto nas assembleias mais vencelhadas ao rural continua a predominar a linha histórica do galeguismo. A assunção dum modelo de escolha da direção política nacional fundamentado no reconhecimento desta pluralidade, através dum sistema de listagens proporcionais puras em referendo nas assembleias locais poderia ser uma ferramenta para manter a coesão anovando: ou seja, a II assembleia nacional encarregar-se-ia de elaborar as teses e o conjunto da militância poderia em referendo escolher a sua direção política nacional, a Comissão Ética e de Garantias e mais referendar, se é o caso, as teses aprovadas pela II assembleia nacional. A porta-vozia deveria ser escolhida pela nova CN, pois fazê-lo doutro jeito é cair no erro de eleger uma secretária ou um secretário-geral.


1Pessoalmente considerei um erro aderir a abstenção já que esta é muito doada de ocultar e muito mais difícil de fiscalizar que um voto-protesto (branco, nulo...). Contudo, e como se verá, a análise dos resultados territorializados deixa bem claro que há uma maioria de Anova que não adere nem a integração em IU nem o procedimento seguido pela direção atual de Anova neste processo.

2No referendo de 13 de fevereiro a opção 1 (“Que Anova participe integrada em coligação com a esquerda federal”) recebeu 380 votos (48'04%). A segunda opção (“Que Anova conforme uma coligação com forças políticas de esquerda nacionalista das naç4oes sem estado e/ou plataformas cívico-políticas de esquerda e rupturistas”) obteve 369 votos (46'65%). A opção 3 (não concorrer às europeias) teve apenas 37 votos (4'68%). No referendo participaram 791 pessoas, 72'44% com direito a voto.

3“Quê nova cultura para qual nova esquerda?” em À revolta entre a mocidade: